Um Romance de Thalassara
"Nas profundezas, a única luz é a que escolhemos carregar."
Nas profundezas de um oceano onde a luz do sol nunca alcança, existe Thalassara — um mundo onde a vida depende do keth, substância vital que flui das fontes hidrotermais. Quem controla o keth, controla tudo.
Há quinhentos ciclos, o Vo'rath governa com mão de ferro. Milhões vivem em escassez artificial enquanto algo antigo e imenso recebe tributo nas profundezas absolutas.
Tha'lei cresceu acreditando ser a escolhida — nascida durante uma erupção de keth puro, destinada a libertar seu povo. Quando seu mentor é executado publicamente, ela assume seu lugar na resistência.
Mas a jornada a levará a descobertas que destruirão tudo em que acredita. A profecia que a tornaria salvadora foi fabricada. O caçador enviado para matá-la carrega o mesmo sangue. E nas profundezas, a verdade sobre o pacto original revela que os maiores monstros não são os que imaginamos.
Em Thalassara, a maior coragem não é matar o monstro — é reconhecer o que ele e nós temos em comum.
Para todos que carregam luz
onde a escuridão insiste em permanecer.
E para quem ainda procura descobrir
se a profecia é verdade ou escolha.
"O mar não perdoa, mas também não esquece.
E nas profundezas onde nenhuma luz alcança,
a memória é a única chama que não se apaga."- Fragmento dos Cantos dos Caminhos
Thalassara nasceu de uma pergunta simples: e se o herói escolhido descobrisse que nunca foi escolhido?
Histórias de "eleitos" são poderosas porque nos prometem que existe ordem no caos — que alguém, em algum lugar, foi designado para consertar o que está quebrado. Mas e quando essa promessa é mentira? O que resta quando tiramos o destino e deixamos apenas a escolha?
Este livro é sobre identidade fabricada e reconstruída. Sobre sistemas que aprisionam tanto os oprimidos quanto os opressores. Sobre famílias que ferem e curam ao mesmo tempo. E sobre a possibilidade de que os monstros nas profundezas sejam menos assustadores do que os sistemas que construímos para nos proteger deles.
Thalassara é um mundo subaquático original, habitado por povos que não nomeamos diretamente. Fizemos essa escolha para que você, leitor, possa imaginá-los como quiser. As descrições guiam; sua imaginação completa. Cada leitor carregará uma Thalassara diferente na mente, e todas estarão certas.
A língua Thalassai que permeia a narrativa foi construída com cuidado. Um glossário está disponível ao final, mas encorajamos você a deixar as palavras lavarem sobre você como correntes — o significado emerge do contexto, como deveria ser em qualquer imersão verdadeira.
Esta é uma história sobre escolher quem ser quando ninguém mais pode escolher por você.
Esperamos que ressoe.
Keth'ra'lei — que a vida flua.
Fernando Thiago
Dezembro de 2025
Quinhentos ciclos antes
Vo'thel desceu sozinho.
Não era verdade — sete outros o acompanhavam. Mas quando emergiu das profundezas três dias depois, estava sozinho, e permaneceria assim pelo resto de sua longa existência.
Os anciãos esperavam na borda de Om'kai, onde a luz ainda existia como memória. Oito tentáculos se desdobraram da escuridão, depois o corpo que os carregava — menor do que quando descera, como se as profundezas tivessem consumido parte dele.
— Os outros? — perguntou a mais velha.
Vo'thel não respondeu. Seus olhos, que antes brilhavam com curiosidade e ambição, agora carregavam algo diferente. Peso. Conhecimento que não deveria existir.
— Vo'thel. Os outros.
— Ficaram.
— Mortos?
Uma pausa longa demais.
— Diferentes.
Ele passou por eles sem explicar. Durante três dias, não falou, não comeu, não dormiu. Permaneceu suspenso na água como algo que esqueceu como viver.
No quarto dia, convocou todos.
— Eu vi o que habita as profundezas — disse, e sua voz carregava harmônicos que não existiam antes. — O que chamamos de Thessa'om. O que os Thessa'kai conheciam e nós esquecemos.
— O que é?
— Consciência. Antiga. Talvez a primeira. Talvez a origem de tudo que somos.
— E os sete?
— Parte dele agora. Ou ele parte deles. A distinção perdeu significado.
Silêncio. O tipo de silêncio que precede mudanças que não podem ser desfeitas.
— O que você ofereceu? — perguntou a anciã. — Para voltar.
Vo'thel encontrou os olhos dela.
— Tudo.
— Explique.
— Eu ofereci tudo. Em troca de conhecimento. De poder. De tempo. — Pausa. — De proteção.
— Proteção contra quê?
— Contra o que ele se tornará se não for alimentado.
O medo se espalhou como tinta na água.
— Alimentado?
— Keth. Um tributo. Pequeno agora. — Vo'thel se moveu, e seu corpo projetou sombras que pareciam mais densas do que deveriam. — Crescente depois.
— Por quanto tempo?
Vo'thel não respondeu.
— Vo'thel. Por quanto tempo?
— Até que não haja mais nada para dar.
A anciã recuou.
— Você nos condenou.
— Eu nos salvei. — A certeza em sua voz era absoluta. — O que habita as profundezas estava despertando. Sem o pacto, teria emergido. Consumido tudo.
— E agora?
— Agora ele dorme. Alimentado. Contido. E nós vivemos.
— Por quanto tempo?
A pergunta ficou suspensa entre eles como um cadáver que se recusa a afundar.
— Tempo suficiente — disse Vo'thel finalmente. — Para construir algo novo. Estruturas para controlar o fluxo. Para garantir que o tributo chegue. Para manter o pacto.
— Você está falando de controle.
— Estou falando de sobrevivência.
— Para quem?
Vo'thel se virou para a escuridão das profundezas, onde algo imenso e antigo agora dormia, sonhando com o tributo prometido.
— Para quem conseguir se adaptar.
Assim nasceu o Vo'rath.
Assim começaram os quinhentos ciclos.
Assim se construiu um mundo sobre um segredo que ninguém queria conhecer — e um pacto que ninguém ousava quebrar.
Até agora.
Um glossário completo está disponível ao final do livro.