Capítulo Seis

O Caçador

Seus dedos não obedeciam.

Simplesmente deixaram de ser dele, transformando-se em instrumentos independentes de uma vontade que não era a sua. Vorn caiu. O basalto corroído rasgou sua carapaça modificada, mas ele mal sentiu. Todo o seu ser estava concentrado no tremor — nas mãos que se contraíam em padrões que não controlava, nos músculos que espasmavam sem comando, na visão que fragmentava em imagens que não eram dele.

Abstinência.

A palavra flutuou em sua mente como acusação. Quatro dias sem o keth modificado. Quatro dias desde que deixara Vo'kethara, desde que a última cápsula selada chegara pelo drone matinal. Seu corpo estava cobrando o preço.

E o preço era ele.

A maioria dos Shar'nu morria no terceiro dia de abstinência. Vorn estava no quarto. Seus sentidos ampliados, aqueles que haviam sido modificados para processar partículas de água e detectar assinaturas térmicas, agora giravam em ciclos de estática que ele não conseguia desligar. As guelras implantadas, forjadas para filtrar keth puro de qualquer fluido, agora aspiravam o vazio de Null'kai e o passavam adiante sem absorver nada.

Os tremores aumentaram.

Vorn tentou se levantar. Suas pernas responderam — parcialmente. O basalto sob ele se inclinou em ângulos que suas modificações visuais processaram como incorretos, a água ao redor distorcendo em padrões geométricos que não correspondiam a nenhuma estrutura conhecida.

Ele olhou para sua mão.

A marca dourada ainda estava ali — linhas que se entrelaçavam como raízes ou veias, pulsando com uma luz fraca que não vinha de nenhuma fonte que ele pudesse identificar. Não doía, exatamente. Era pior. Era como ter uma parte de si que não reconhecia, que não pertencia ao sistema de processamento que era tudo que ele sabia ser.

O que ela fez comigo?

Ele tinha três ciclos.

A sala era branca — branco estéril que machucava os olhos de quem nunca vira outra cor. Mãos o seguravam — mãos com muitas articulações, mãos que pareciam ter sido desenhadas por alguém que não entendia completamente a biologia dos Shar'nu.

— Vai doer — disse a voz sem rosto.

Não havia rosto. Apenas voz saindo de algum lugar acima dele, da direção onde a luz branca se fundia com o teto branco que se fundia com o branco absoluto do espaço.

— Mas depois você não vai mais sentir dor. Não vai sentir nada que não seja útil.

A primeira agulha entrou.

Arderia seria a palavra gentil. O que ele sentiu foi fogo líquido correndo em suas veias, transformando tudo que tocava em algo que não era mais dele. Seus ossos — que ainda estavam crescendo, que ainda eram frágeis — receberam a injeção de minerais extraídos de veias vulcânicas. A dor foi além de qualquer coisa que palavras pudessem descrever, além do que um corpo de três ciclos deveria ser capaz de suportar.

Ele gritou.

O som ecoou na sala branca, e ninguém se importou. As mãos continuaram segurando. A voz continuou falando instruções técnicas que ele não entendia. O fogo continuou correndo.

E quando acabou, ele foi diferente.

Ossos mais densos. Sentidos ampliados. Metabolismo alterado para exigir algo que só o regime poderia fornecer.

E dependência.

A dependência foi o primeiro thingo que mudou. Antes da injeção, ele era um filhote. Depois, ele era uma ferramenta que precisava de combustível para funcionar.

A memória se dissipou como fumaça, deixando Vorn de volta ao presente. Aos pés dele, o chão de Null'kai permanecia imóvel — uma crosta de basalto rachado em padrões hexagonais onde o magma havia esfriado há milênios. A água parada não carregava vida. Não carregava keth. Não carregava nada além do frio que penetrava nas fissuras de sua carapaça modificada e se espalhava pelos sistemas de processamento.

Vorn se levantou. Os tremores diminuíram, mas não desapareceram. Seus sistemas de comando tentavam recalibrar, tentavam compensar a falta do combustível químico que o regime implantara nele como substituto para vontade própria.

E funcionaram. Parcialmente.

Ele começou a nadar. Não em direção a lugar algum específico — apenas para longe do ponto onde o corpo havia falhado, para longe da evidência física de que ele estava se desfazendo.

* * *

O filhote estava ali, sozinho.

Um Shar'veth jovem — talvez quatro ciclos, dificilmente mais. Perdido nas profundezas de Null'kai, onde nada deveria viver e onde menos ainda um filhote de predador deveria sobreviver. Suas guelras abriam e fechavam em padrões rápidos, pânico visível mesmo para sentidos que estavam falhando.

Vorn deveria matá-lo.

O protocolo era claro: filhotes de espécies hostis são riscos potenciais. Eliminá-los é prevenção. Setenta e três execuções de alvos juvenis, todas documentadas nos registros de serviço. Todas justificadas pelas mesmas linhas de texto que Vorn podia recitar de memória.

Sua mão se moveu.

E parou.

Pela primeira vez em setenta e três caçadas, Vorn hesitou.

Os sistemas de processamento registraram a falha. Análise de erro iniciada. Identificação de anomalia... nenhum resultado. Os sentidos ampliados escanearam o filhote: massa de aproximadamente 15 quilos, taxa metabólica elevada, padrões de comportamento consistentes com pânico severo. Nenhum registro de ameaça imediata.

Isso não importava. O protocolo não se baseava em ameaça imediata. Baseava-se em potencial de dano. Filhotes crescem. Filhotes se tornam adultos. Adultos de espécies hostis representam risco.

Eliminar era prevenção.

O filhote olhou para ele — olhos grandes e pretos cheios de um terror puro, antigo, que não entendia. Não implorou. Não fugiu. Apenas olhou, como se tentasse entender por que o monstro enorme na sua frente não tinha atacado ainda.

— Você... — Vorn parou. Sua voz soou estranha, gasta, como se não tivesse usado palavras em muito tempo. — ...você está perdido.

Não era pergunta. Era confirmação.

E era a primeira vez que ele falava com um alvo em vez de matá-lo.

Os sistemas de processamento registraram outra falha. Vorn ignorou-os. Seus sistemas de comando, aqueles que haviam sido implantados junto com a dependência química, tentavam forçar a execução do protocolo padrão. Mas seus dedos — os mesmos que haviam falhado antes, os mesmos que haviam se recusado a obedecer — agora se recusavam a seguir as ordens que haviam governado toda a sua existência.

Ele aproximou-se do filhote.

O Shar'veth jovem recuou, mas apenas um pouco. O medo ainda estava presente nos olhos, mas havia algo mais. Confusão. Como se esperasse lâmina e encontrasse... o quê? Vorn não sabia. Nem os sistemas de processamento conseguiam identificar.

— O caminho — disse Vorn, e a voz soou mais forte — ...está assim.

Ele apontou na direção de um túnel lateral, aquele que seus sentidos ampliados detectavam como levando para níveis mais rasos onde correntes mínimas ainda transportavam partículas de vida. O filhote olhou, depois olhou de volta para ele.

E então, algo impossível aconteceu.

O filhote seguiu o apontar.

Não fugiu. Não atacou. Apenas... seguiu. Como se acreditasse que o monstro que deveria ser sua morte fosse seu guia.

Vorn observou o fenômeno com interesse analítico. Setenta e três caçadas, setenta e três execuções sem falhas. E agora, um filhote perdendo o caminho causava um erro de sistema que ele não conseguia identificar. Anomalia de processamento. Falha nos protocolos de designação. Inconsistência nos padrões de comportamento.

Ele não sabia o que fazer com isso.

A Kelu'nu estava ajoelhada.

Era jovem — talvez vinte ciclos. Sua carapaça estava marcada por padrões que uma vez foram bonitos, agora rachados por ciclos de trabalho pesado em condições que ninguém deveria suportar. E sua barriga...

Vorn soube o que era antes que o comandante dissesse.

— Alvo de prática — anunciou a voz sem rosto. — Diferente dos anteriores. Esta tem... valor instrutivo adicional.

A Kelu'nu olhou para ele.

Não com medo, como todos os outros olharam. Não com desespero, como os que tentavam fugir. Com algo pior. Com esperança.

Como se acreditasse que, em todos aqueles monstros que o cercavam — Shar'kai em formação, recém-modificados e famintos — ele pudesse ser diferente.

Como se visse algo nele que nem ele mesmo sabia que existia.

Vorn levantou a lâmina.

E a baixou.

A sala ficou em silêncio. Os outros Shar'kai em formação se voltaram para ele, e pela primeira vez em todas as sessões de treinamento que ele pudesse recordar, ninguém executou. Todos esperaram. Todos observaram.

— O que está fazendo? — o comandante não parecia confuso. Parecia furioso. Como se Vorn tivesse quebrado alguma regra que não fora dita em voz alta.

— Ela... — Vorn lutou com palavras que pareciam ter esquecido como funcionar. — ...ela não é alvo.

— Tudo é alvo.

— Não. — A palavra veio antes que ele pudesse processar, antes que os sistemas de comando pudessem intervir. — Não isso. Não agora.

A Kelu'nu olhou para ele de novo. E pela primeira vez, Vorn percebeu que seus padrões bioluminescentes — aqueles que ele fora treinado a ignorar como irrelevantes — estavam brilhando. Fracos, mas presentes. Em tons de azul que nunca vira antes, desenhando espirais em sua carapaça que pareciam... significar algo.

O comandante se aproximou.

— Você está hesitando. Isso é inaceitável. Hesitação é falha. Falha é correção.

Vorn sentiu a dor antes que viesse.

Não dor física. Dor de memória. Dor de algo sendo apagado, sendo arrancado, sendo removido antes que pudesse se estabelecer. A Kelu'nu desapareceu de sua mente antes que pudesse entender os padrões que ela carregava. Antes que pudesse perguntar por que ela o olhava com esperança.

A sala ficou em silêncio novamente.

E Vorn voltou a ser o que era antes. O que sempre fora.

Uma ferramenta.

A memória se dissolveu como todas as outras, deixando Vorn de volta ao túnel escuro de Null'kai. O filhote de Shar'veth ainda estava ali, olhando para ele como se esperasse que continuasse.

E ele continuou.

Guioou o filhote através do túnel, acompanhando-o à distância suficiente para que os sistemas de comando não registrassem como violação de protocolo. Não que isso importasse — os sistemas já haviam falhado. As anomalias se acumulavam: hesitação com o filhote, memórias emergindo sem solicitação, falhas nos padrões de comportamento que não correspondiam a nenhum registro de treinamento.

E o pior de tudo.

A marca dourada em sua mão.

Ela pulsava. Não constantemente — em intervalos irregulares, em sincronia com algo que Vorn não conseguia detectar com os sentidos ampliados. Algo que não era água, não era keth, não era qualquer substância que seus sistemas de processamento conhecessem.

Algo que estava... chamando.

Direção.

A marca pulsava mais forte quando ele olhava para certa direção. Aquela onde as partículas de Tha'lei ainda apontavam, para onde o rastro de vida ainda levava. Para onde o Coração estava.

Vorn parou. O filhote continuou, agora encontrando o túnel que levava para os níveis mais rasos, para onde talvez pudesse sobreviver.

E pela primeira vez em setenta e três caçadas, Vorn ficou.

Não aguardando ordens. Não processando informações. Apenas ficou. E pensou.

O pensamento veio de algum lugar fora dos sistemas de comando, fora das memórias apagadas, fora da dependência química que governava tudo que ele era.

Shar'om'kai, o caminho da lâmina. Isso era o que o regime lhe ensinara. Isso era tudo que ele era.

Mas agora...

Agora os tremores eram diferentes. Não os espasmos da abstinência, aqueles que o corpo cobrava como preço por falta de combustível. Estes eram mais sutis. Mais internos. Como se algo dentro da carapaça modificada estivesse se espreguiçando, testando limites que não sabia que existiam.

Vorn olhou na direção do Coração.

Ele tinha uma escolha.

Não a primeira — a primeira escolha verdadeira. A primeira vez que a opção não estava pré-programada nos sistemas de comando, a primeira vez que os protocolos não diziam o que fazer.

Poderia voltar. Poderia nadar em direção a Vo'kethara, deixar que o drone matinal entregasse sua dose, deixar que o keth modificado apagasse tudo que estava acontecendo. Voltar a ser funcional. Voltar a ser arma. Voltar a ser o que eles fizeram dele.

Simples.

Ou...

Ou poderia seguir adiante. Poderia ir até o Coração. Poderia encontrar a jovem Kelu'lei que fizera luz sair de sua própria carapaça e deixara uma marca em sua mão que não se apagava. Poderia tentar entender o que estava acontecendo. O que ela era. O que ele estava se tornando.

A primeira escolha.

Vorn sabia que era perigoso. Sabia que a abstinência poderia matá-lo antes que chegasse. Sabia que, se voltasse sem completar a designação, o regime o puniria de formas que nem ele imaginava. Sabia que estava operando fora de todos os protocolos estabelecidos, que todas as setenta e três caçadas anteriores lhe prepararam para este momento e todas as falharam.

Mas pela primeira vez em sua vida, a escolha era dele.

E escolher doía mais do que qualquer lâmina.

Vorn olhou para sua mão — para a marca dourada que Tha'lei lhe deixara, pulsando agora em sincronia com alguma coisa no Coração que ele não via mas sentia.

Setenta e três caçadas. Setenta e três vezes, ele tinha sido apenas a lâmina.

Pela primeira vez, era algo mais. Ou talvez, pela primeira vez, era algo menos.

Pela primeira vez, era humano.

E isso era terrível.

Vorn começou a nadar em direção ao Coração.

Shar'om'kai.

O caminho da lâmina.

Nas profundezas de Null'kai, pela primeira vez em setenta e quatro caçadas, um caçador escolheu. E nada voltaria a ser como antes.

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