— Rotas de patrulha.
Vorn falava sem levantar os olhos do mapa improvisado — fragmentos de coral recuperados e pigmentos de keth diluído, desenhando sobre uma laje de basalto. Seus dedos tremiam levemente, resquício da abstinência que ainda não passara completamente.
— O quê? — Tha'lei inclinou-se sobre a mesa, tentando decifrar os padrões que ele desenhava.
— Rotas de patrulha — repetiu Vorn. — O regime tem padrões. Seqüências. Rotinas que eles acham imprevisíveis, mas são apenas cíclicas. — Ele traçou uma linha através do mapa. — Esta patrulha passa aqui a cada três dias. Esta outra, aqui, a cada cinco.
Tha'lei processou a informação.
— Isso é... útil?
— Isso é sobrevivência. — Vorn finalmente olhou para ela. Os olhos negros ainda tinham o vazio de quem vira demais, mas algo havia mudado. Havia luz nos cantos, como se uma porta tivesse se aberto um centímetro. — Se vocês sabem quando passar, podem se esconder. Ou preparar. O que for necessário.
Keth'ra observava do outro lado da sala, braços cruzados, cicatrizes expostas como declaração de guerra. Ela não dizia nada, apenas observava. Avaliando. Pesando.
— Por que você está nos dando isso? — perguntou Tha'lei.
Vorn pensou na pergunta.
— Porque preciso de motivo para não me matarem. — Ele disse isso sem amargor. Apenas fato. — Informações em troca de vida. A equação é simples.
— E se não for suficiente? — A voz de Keth'ra cortou o silêncio. — E se as informações não valerem o risco de manter um Shar'kali vivo?
Vorn encontrou os olhos dela.
— Então eu morro. — Ele disse isso com a mesma certeza com que falava das rotas de patrulha. — Mas até lá... vocês sabem mais do que sabiam antes.
Tha'lei sentiu um arrepio percorrer sua carapaça. Não era medo. Era... admiração? Talvez. Ou talvez fosse apenas reconhecimento de alguém que finalmente entendia as regras de um jogo que ela ainda estava aprendendo.
— Vamos testar — disse Keth'ra. — Amanhã. Patrulha que você marcou aqui. — Ela apontou para o mapa. — Se estiverem lá... você vive mais um dia.
Vorn assentiu.
— E se não estiverem?
— Então você nos deu informações falsas. — Keth'ra se aproximou da mesa. — E a consequência disso é...
Ela não completou. Não precisava.
* * *
Dia seguinte
Tha'lei não queria ir.
Não por medo. Por... ela não sabia exatamente. Apenas algo que se apertava em seu peito quando pensava em Vorn sozinho na cela, esperando notícia que poderia ser sentença de morte.
— Você está preocupada.
Keth'ra apareceu ao seu lado sem som. Tha'lei não se sobressaltou — estava começando a reconhecer a assinatura acústica da líder da resistência, o deslocamento de água particular.
— Ele disse a verdade — disse Tha'lei, em vez de responder. — Eu consigo... sentir. Pela marca.
Keth'ra olhou para ela. Havia algo em seu olhar que Tha'lei não conseguia ler.
— A marca. — A palavra era quase pergunta.
— Ela pulsa quando ele está perto. Quando ele está dizendo verdade. — Tha'lei tocou a rachadura em sua carapaça. — Eu não sei como explicar. É apenas... algo.
— Conexão. — Keth'ra completou o pensamento. — E isso é perigoso.
— Por quê?
— Porque conexões podem ser exploradas. — Keth'ra se afastou, nadando em direção à saída. — Por ambos os lados. Nunca se esqueça disso, Tha'lei. Conexão é vulnerabilidade.
Tha'lei ficou sozinha na penumbra, pensando na marca pulsando em sua mão. Na certeza de que Vorn dissera a verdade. No medo de que certeza não fosse suficiente.
A equipe partiu ao amanhecer — cinco membros da resistência, liderados por Thar'om, o Finn'ra que queria Vorn morto desde o primeiro dia. Tha'lei observou-os partir do perímetro, sentindo a marca pulsar mais forte quanto mais longe eles ficavam do Coração.
Três horas. Thar'om tinha dito. Três horas até a posição da patrulha. Mais três para voltar.
Seis horas até sabermos se Vorn vive ou morre.
Tha'lei foi para a cela.
Vorn estava onde ela o deixara — sentado no chão de basalto frio, costas contra a parede, olhos fechados. A marca dourada em sua mão pulsava em ritmo lento, como coração adormecido.
— Eles partiram — disse ela.
Vorn abriu os olhos.
— Eu sei.
— Como sabe?
— Sinto. — Ele levantou a mão, mostrando a marca. — A mesma razão pela qual você sabe quando estou mentindo. A mesma razão pela qual sei que você está preocupada.
Tha'lei não negou.
— Thar'om quer você morto.
— Eu sei.
— Se a informação for falsa...
— Eu sei. — Vorn se aproximou das grades. — Tha'lei, eu não estou esperando misericórdia. Sei o que fiz. Sei o que sou.
— O que você é?
A pergunta saiu antes que ela pudesse pensar.
Vorn pensou na resposta.
— Não sei mais. — Ele olhou para suas próprias mãos. — Setenta e três execuções. Setenta e três vidas apagadas. E agora... agora não consigo nem me lembrar dos rostos. — Os olhos dele encontraram os dela. — Isso me torna monstro?
Tha'lei pensou em Kel'om. Cantando enquanto morria. Sorrindo para ela através da fenda.
— O que você faz importa — disse ela finalmente. — Mas o que você escolhe fazer... isso importa mais.
Vorn sorriu — não sorriso completo, mas algo que talvez se transformasse em sorriso um dia.
— Você é muito idealista.
— E você é muito pessimista. — Tha'lei sorriu também. — Talvez a gente se encontre no meio.
O silêncio que se seguiu não foi tenso. Foi cômodo. Como dois produtos de sistemas que não escolheram, aprendendo a ser pessoas no espaço entre as grades de uma cela improvisada.
* * *
Seis horas depois
Tha'lei estava dormindo quando a equipe retornou.
Acordou com o som de vozes — muitas, altas, carregadas de emoção que ela não conseguia identificar imediatamente. Correu para o corredor principal, onde o grupo se reunia, conversando sobreposto, gesticulando.
Thar'om estava no centro.
— Ele tinha razão. — A voz do Finn'ra carregava algo que poderia ser descrença ou poderia ser admiração. — A patrulla estava exatamente onde ele disse. Exatamente quando ele disse.
Murmuros de surpresa percorreram a sala.
— E não apenas isso — continuou Thar'om. — Nós... nós preparamos uma emboscada. Nada letal, apenas... frustração. Cortamos seus suprimentos. Desviamos sua rota. — Ele pausou. — Vai levar ciclos para o regime descobrir o que aconteceu.
A sala explodiu em conversa. Alguns celebravam. Outros planejavam. Outros ainda expressavam ceticismo.
Keth'ra levantou-se, e o silêncio retornou gradualmente.
— Isso significa que a informação dele é válida. — Ela olhou para Tha'lei. — E isso significa que ele vive mais um dia.
Tha'lei soltou o ar que nem sabia que estava prendendo.
Ele vive.
Mais um dia.
Keth'ra se aproximou dela.
— Você vai traze-lo para a sala de briefing. — A voz da líder da resistência não deixava espaço para argumento. — Temos mais perguntas. E ele tem... utilidade.
Tha'lei assentiu.
— E depois?
— Depois — disse Keth'ra — nós veremos.
* * *
Sala de briefing
A sala estava cheia.
Sete membros do conselho, mais Keth'ra, mais Vorn algemado — algemas improvisadas de coral trançado, suficientemente fortes para conter um Shar'kai enfraquecido, suficientemente humildes para não serem metal do regime.
Vorn olhava ao redor, avaliando. Tha'lei sentiu isso através da marca — ele estava calculando ameaças, saídas, probabilidades. Hábito de caçador que não desaparecia apenas porque ele escolhera não matar.
— Situação — disse Keth'ra, dirigindo-se à sala. — O regime está intensificando patrulhas na região de Null'kai Oriental. Estão procurando algo. Alguém.
Silêncio.
— Você — ela se voltou para Vorn. — Sabe o quê?
Vorn pensou na pergunta.
— Não diretamente. — Sua voz era calma, factual. — Mas posso inferir.
— Como?
— O regime não desperdiça recursos. — Vorn olhou para os membros do conselho. — Patrulhas intensificadas significam que alguém importante foi perdido. Ou algo valioso foi roubado.
— Você — disse Thar'om.
Vorn assentiu.
— Eu sou desertor. Desertores são... problemáticos. Mostram que armas podem quebrar. Mostram que controle não é absoluto.
— Então eles estão procurando você. — Tha'lei não fizera a pergunta como pergunta.
— Sim. — Vorn encontrou os olhos dela. — E se me encontrarem... vão me eliminar. Junto com qualquer um que esteja comigo.
A ameaça ficou clara na sala.
— Eles vão descobrir o Coração — disse Vel'ra, o mensageiro traumatizado. — Vão descobrir a base. Vão...
— Não necessariamente. — Vorn interrompeu. — Há maneiras de... redirecionar a atenção.
— Como? — Keth'ra perguntou.
Vorn pensou na resposta.
— Informação falsa. — Ele desenhou no mapa outro padrão. — Se vocês deixarem rastros... pistas... sugerindo que eu fui para oeste, em direção a Finn'shara Sul...
— Eles vão acreditar? — Thar'om não parecia convencido.
— Acreditarão se a evidência for convincente. — Vorn olhou para Keth'ra. — O regime é eficiente. Não é onisciente. Eles confiam em dados. Se os dados disserem oeste, eles vão para oeste.
Keth'ra pensou na proposta.
— Isso nos daria tempo. — Ela olhou para o mapa. — Quanto tempo?
— Semanas. Talvez um ciclo, se planejarmos bem.
— Tempo suficiente para... — Tha'lei começou.
— Para fortificar. — Keth'ra completou. — Para treinar. Para preparar.
Ela se voltou para Vorn.
— O que você quer em troca?
Vorn olhou para ela. Depois para Tha'lei. Depois para a marca pulsando em sua mão.
— Liberdade condicional. — A escolha de palavras foi deliberada. — Quero... sair da cela. Quero contribuir. Quero ser mais do que apenas fonte de informação.
A sala ficou em silêncio.
— Você quer se juntar à resistência — disse Keth'ra. Era declaração, não pergunta.
— Eu quero... — Vorn pausou, procurando as palavras certas. ...quero escolher. Pela primeira vez de verdade. Não escolher não matar. Escolher fazer algo.
Thar'om riu — som amargo, sem humor.
— Um caçador lutando pela resistência. Isso é piada?
— Eu não lutei por vocês ainda. — Vorn olhou para ele. — Mas lutei contra vocês. E perdi. Talvez isso signifique algo.
Thar'om não respondeu.
Keth'ra olhou ao redor da sala. Cada rosto. Cada opinião.
— Vamos votar. — Ela disse isso com a voz calma, mas havia peso em suas palavras. — Quem acha que devemos aceitar a proposta?
A contagem foi lenta. A mão de Tha'lei foi a primeira a se levantar. Depois Keth'ra. Depois Vel'ra. Mais três seguiram. Thar'om foi o último a levantar, com relutância clara.
— Estamos fazendo uma estupidez — disse ele. — Quando ele nos trair, não digam que eu não avisei.
— Eu estou ciente do risco — disse Keth'ra. — Mas também estou ciente do potencial.
Ela se voltou para Vorn.
— Liberdade condicional. Você sai da cela. Você treina conosco. Você ajuda a planejar. Em troca...
— Informações. — Vorn completou. — Lealdade. — Ele pausou. — ...e escolha.
— E escolha. — Keth'ra assentiu. — Mas saiba disto, Vorn: se você trair, não precisa esperar pela execução. Tha'lei vai te matar pessoalmente.
Tha'lei endireitou-se, surpresa.
— O quê?
— Você tem conexão com ele. — Keth'ra não desviava o olhar. — Se ele trair, você vai sentir. E você vai ser a responsável por garantir que ele não traga novamente.
Tha'lei pensou nisso. Pensou na marca pulsando em sua mão. Na certeza de que Vorn dissera a verdade. Na possibilidade de que um dia, talvez, ele não dissesse.
— Eu entendo. — A voz saiu mais firme do que ela se sentia.
Keth'ra assentiu.
— Então está decidido. — Ela se voltou para Vorn. — Bem-vindo à resistência, Shar'kali. Tente não se arrepender.
* * *
Treinamento
Vorn nunca treinara alguém.
Fora treinado para matar. Treinado para seguir. Treinado para ser a lâmina que outros empunhavam. Mas ensinar? Ensinar movimento, técnica, sobrevivência?
Isso era novo.
— Você está muito rígida.
Tha'lei tentou não se frustrar.
— Você já disse isso. Três vezes.
— É porque você continua fazendo errado. — Vorn circulava-a, observando cada tensão muscular, cada padrão de movimento. — O corpo precisa fluir. Não brigar contra a água.
— Eu estou tentando.
— Tentar não é fazer. — Vorn parou atrás dela. — Feche os olhos.
Tha'lei hesitou.
— Feche. — A voz dele era firme, mas não cruel.
Ela fechou.
— Sinta a água. Não com o corpo. Com a mente. — Uma nadadeira dele tocou o ombro dela, leve. — Onde a corrente está indo?
Tha'lei concentrou-se.
— Para... norte. Mais ou menos.
— Mais ou menos não é suficiente. — Vorn afastou a nadadeira. — Sinta. Realmente sinta.
Tha'lei respirou fundo. Deixou a água envolvê-la, ouvi-la, senti-la. Havia correntes múltiplas, sobrepostas, cada uma puxando em direção diferente. Norte-noroeste. Oeste-sudoeste. Uma corrente mais profunda puxando para leste.
— Norte-noroeste é a dominante — disse ela. — Mas há outra, mais fraca, puxando para leste.
— Sim. — Vorn moveu-se para o lado dela. — Agora, use isso. Não lute contra. Use.
— Como?
— Deixe a água te mover. — Vorn tocou a rachadura em sua carapaça — a primeira vez que ele a tocara deliberadamente desde que começaram o treinamento. — Você é keth'lei. Você nasceu da luz. Use isso. Sinta a corrente como se fosse extensão de você mesma.
Tha'lei concentrou-se. A marca pulsava onde ele tocava, quente, insistente.
E então... algo mudou.
Ela não podia explicar. Não havia palavras. Mas de repente, a água não era mais algo separada. Era extensão. Era parte. Ela podia sentir a corrente norte-noroeste puxando, podia sentir a leste sussurrando, podia escolher qual seguir, como se fosse...
...como se fosse seu próprio sangue.
Seus olhos se abriram.
— Vorn?
— Sim?
— Eu... eu sinto.
— O quê?
— Tudo. — Tha'lei olhou para as mãos, depois para a água ao redor. — A corrente. A temperatura. As partículas de keth. Eu... eu sinto tudo.
Vorn sorriu — sorriso completo desta vez.
— Você sempre sentiu. — Ele afastou-se. — Você apenas nunca deixou si mesma perceber.
Tha'lei permaneceu na água, sentindo. A corrente norte-noroeste puxava suavemente. Ela seguiu, deixando o corpo fluir, mover-se, dançar com a água em vez de contra ela.
Quando olhou para Vorn novamente, ele estava observando-a com algo que parecia orgulho.
— Você aprendeu rápido. — Havia approvação em sua voz. — Mais rápido do que eu esperava.
— Porque você é um bom professor.
— Sou um sobrevivente ensinando outra sobrevivente. — Vorn se aproximou das grades que agora apenas simbolizavam sua prisão — Keth'ra o libertara condicionalmente dois dias antes. — Não há nada mais nobre que isso.
Tha'lei pensou nas setenta e três execuções. Pensou em tudo que ele aprendera e aprendera a desaprender. Pensou no caçador que escolheu não matar.
— Você não é mais caçador. — A declaração saiu before que ela pudesse pensar.
Vorn pensou na resposta.
— Não sei o que sou. — Ele olhou para a marca pulsando em sua mão. — Mas sei o que escolho ser.
— O quê?
— Alguém que merece olhar você nos olhos sem sentir vergonha.
Tha'lei não teve resposta para isso.
A marca pulsava entre eles — sincronizada, quente, viva. Conexão que nenhum dos dois entendia completamente, mas ambos aceitavam.
Aliança improvável, pensou Tha'lei.
Mas talvez... talvez exatamente a aliança de que precisávamos.
* * *
Duas semanas depois
A primeira missão juntos foi simples demais.
Reconhecimento. Keth'ra dissera. "Apenas olhar. Nada de heroísmo. Nada de estupidez."
Mas Tha'lei sabia que reconhecimento era apenas outro nome para perigo.
Ela e Vorn nadaram em silêncio através de Null'kai, movendo-se por correntes que ele conhecia melhor do que qualquer mapa. A marca pulsava entre eles, constante, reconfortante — fio invisível conectando dois sobreviventes em um mundo que queria ambos mortos.
— Lá em frente. — Vorn apontou para uma formação rochosa. — Ponto de observação ideal. Vista completa do corredor principal de patrulha.
Tha'lei seguiu-o. Seu movimento estava melhor agora — fluido, integrado à água em vez de lutar contra. Duas semanas de treinamento com Vorn haviam mudado mais do que sua técnica. Mudaram como ela percebia o mundo.
Você sempre sentiu. Você apenas nunca deixou si mesma perceber.
Eles se posicionaram atrás da formação, observando.
A patrulha passou — seis Shar'nu, movendo-se em formação padrão, carregando suprimentos que a resistência poderia usar. Tha'lei sentiu o impulso de atacar, de emboscar, de...
Não.
Ela observou. Aprendeu. Processou.
— Padrão de movimento? — sussurrou.
— O líder é veterano — respondeu Vorn,同样 sussurrando. — Notem como ele verifica os flancos a cada trinta segundos. Os outros são mais novos. Apenas seguem.
— Podemos explorar isso?
— Talvez. — Vorn continuou observando. — Mas não hoje. Hoje é apenas reconhecimento.
Tha'lei sabia que ele estava certo. Mas ainda assim...
Ele hesitou. Keth'ra feriu ele. Ele recuo. Ele escolheu.
A marca pulsou em sua mão, quente, lembrando.
Escolha.
Quando a patrulha passou, eles começaram a recuar. Mas antes que pudessem...
— Alguém aí.
A voz veio de lado — não da patrulha, mas de uma posição que deveria estar vazia. Tha'lei e Vorn se entreolharam, ambos processando o erro.
Reconhecimento implícito: falhou. Ameaça: desconhecida.
— Vamos. — Vorn já estava se movendo. — Agora.
Mas era tarde demais.
Uma figura emergiu das sombras da formação rochosa. Não Shar'nu. Finn'ra, pelas escamas. Mas não da resistência — as marcas em sua carapaça não eram cicatrizes de tortura, eram tatuagens de lealdade ao regime.
— Um traidor. — O Finn'ra sorriu, revelando dentes afiados. — E uma Keth'lei. — Ele olhou para Tha'lei. — O regime vai pagar generosamente por vocês dois.
Vorn se moveu antes que Tha'lei pudesse processar.
— Corra. — A ordem foi clara. — Eu seguro ele.
— Você não pode...
— Corra. — Vorn já estava posicionado entre ela e o Finn'ra. — Leve a informação ao Coração. Diga a Keth'ra que fomos comprometidos.
— E você?
— Eu vou alcançar. — Vorn olhou por sobre o ombro, e pela primeira vez desde que o conhecera, Tha'lei viu medo em seus olhos. — Vai.
Tha'lei hesitou.
A marca pulsava em sua mão, quente, insistente.
— Vorn...
— Vai.
Ela foi.
Nadou como nunca nadara antes, usando tudo que ele lhe ensinara, sentindo a água como extensão de si mesma. Deixando-o para trás. Deixando-o para enfrentar um inimigo enquanto ela fugia com a informação.
Escolha.
Tha'lei chorou enquanto nadava, lágrimas que se diluíam na água de Null'kai. Lágrimas por Vorn. Pela escolha que ele fazia. Pela possibilidade de que ele não sobrevivesse.
Ele não é mais caçador.
Ele é alguém que escolhe ser digno.
E quando finalmente chegou ao Coração, correndo para a sala de briefing com água nos pulmões e medo no peito, a primeira coisa que fez foi olhar para Keth'ra e dizer:
— Precisamos voltar. Ele não pode... ele não pode morrer sozinho.
Keth'ra olhou para ela. Para a marca pulsando na mão de Tha'lei. Para a lágrima ainda úmida em sua bochecha.
— Eu sei. — A voz da líder da resistência era baixa. — E vamos. — Ela pausou. — Mas não é por ele.
Tha'lei não entendeu.
— Então por quê?
Keth'ra sorriu — não sorriso completo, mas algo que talvez se transformasse em sorriso um dia.
— Porque você o escolheu, Tha'lei. — Ela se levantou, já dando ordens à equipe que se formava. — E na resistência, a gente protege as escolhas dos nossos.
Tha'lei pensou nisso enquanto a equipe se preparava.
Proteger escolhas.
Não erros. Não falhas. Escolhas.
A marca pulsava em sua mão, sincronizada com algo muito longe, em Null'kai.
Vorn.
Espere. Estamos vindo.
Sua voz importa nesta história
O caçador escolheu. A aliança foi formada.
Deixe sua marca nas profundezas de Thalassara.
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