Capítulo Nove

O Prisioneiro

A câmara do conselho não era grande — o Coração não tinha espaço para desperdiçar. Onde quer que Tha'lei olhasse, havia corpos. Familias, pessoal da resistência, crianças brincando em silêncio aprendido. Centenas de vidas comprimidas em uma estrutura que ninguém planejava para uso permanente.

Mas ali, naquela pequena sala escavada nas profundezas do coral morto, apenas sete corpos se sentavam ao redor de uma mesa irregular.

E todos eles olhavam para ela.

— Você é a única que ele não tentou matar.

A voz de Keth'ra não era acusação. Era simplesmente... fato. Como se estivesse observando que a água estava molhada, ou que Null'kai era frio.

— Eu não... — Tha'lei pausou, procurando as palavras certas. — Eu não acho que seja isso. Acho que ele não conseguiu. Ele estava morrendo.

— E mesmo assim não atacou. — Thar'om se inclinou para frente. O líder da facção conservadora da resistência era Finn'ra, escamas prateadas agora opacas pela privação. Seus olhos eram duros, como pedras que não conheciam flexibilidade. — Setenta e três execuções. Setenta e três vezes, ele matou pessoas como nós. E a única vez que hesitou... foi com você.

Tha'lei não tinha resposta para isso.

— Isso é coincidência — disse Thar'om, continuando. — Ou anomalia. Ou whatever que significa "sorte". Mas não é motivo para confiança. Ele é um caçador. Foi feito para matar.

— Ele foi feito — concordou Keth'ra, e havia algo em seu tom que fez Tha'lei prestar atenção. — Mas e agora? Ainda é?

— O que isso importa? — A voz de outro membro do conselho — Vel'ra, o mensageiro traumatizado que percorrera as zonas mortas com mensagens que ninguém queria receber. — O que importa é o que ele fez. Setenta e três corpos. Setenta e três famílias. Setenta e três... ele pausou, visivelmente afetado. ...setenta e três motivos para executá-lo.

O debate recomeçou.

Tha'lei observava, dizendo nada. Seus pensamentos estavam no Shar'kali na cela improvisada no nível inferior. No corpo ferido, tremendo de abstinência. Na marca dourada que pulsava em sincronia com a rachadura em sua própria carapaça.

Não me matou.

Por quê?

— Ele tem informações. — Keth'ra cortou através da discussão, silenciando a sala. — Informações sobre o regime. Sobre Vo'kethara. Sobre rotas de patrulha. Sobre comandantes. Informações que podem salvar vidas.

— E podemos confiar no que ele diz? — Thar'om não desistia.

— Não precisamos confiar. — Keth'ra encontrou os olhos dele. — Precisamos apenas verificar.

Ela se voltou para Tha'lei.

— Você será a vigia.

A sala ficou em silêncio.

— O quê? — Tha'lei não estava certa de ter ouvido corretamente.

— Vigia. — Keth'ra repetiu. — Você vai observar o prisioneiro. Conversar com ele. Extrair whatever que ele souber. E... — ela pausou, e Tha'lei teve a impressão de que havia algo mais sendo dito, algo que apenas Keth'ra entendia — ...e testar alguma coisa.

— Testar o quê?

— Se a conexão é real.

Tha'lei sentiu um arrepio percorrer sua carapaça.

— Eu não... eu não sei se consigo fazer isso. — A confissão saiu antes que ela pudesse pensar. — Ele é... ele é um caçador. Ele matou setenta e três pessoas.

— E não te matou. — Keth'ra não recuava. — Isso importa. Não sei como, não sei por quê. Mas importa.

Thar'om se levantou.

— Isso é estupidez. Pura e completa estupidez. Vamos colocar uma Keth'lei inexperiente para vigiar um Shar'kali recém-capturado? O que pode dar errado?

— Keth'lei — disse Keth'ra, e pela primeira vez Tha'lei percebeu quão perigosa aquela mulher realmente era — não foi profecia que a escolheu. Foi Kel'om. E Kel'om escolheu você por um motivo.

Ela se voltou para Tha'lei novamente.

— Você é a única que ele não tentou matar. Isso significa algo. Não sei o quê ainda. Mas vamos descobrir.

Tha'lei olhou ao redor da sala. Sete rostos. Sete opiniões. Setenta e três vidas pendentes nas entrelinhas.

— E se ele tentar me matar? — perguntou.

— Então nós o matamos. — Keth'ra disse isso como se fosse simples. — Mas até que isso aconteça... você tenta.

Tha'lei engoliu.

— Tenta o quê?

— Tenta entender. — Keth'ra se levantou, sinalizando o fim da reunião. — Tenta descobrir por que o caçador perfeito hesitou. Tenta descobrir o que há entre vocês.

Ela pausou na porta.

— E tenta nos dar uma razão para não executá-lo. Porque Thar'om tem razão em uma coisa: setenta e três corpos são muitos motivos.

Cela improvisada, Nível Inferior

Vorn acordou sem acordar.

A consciência retornou em fragmentos — dor primeiro, depois frio, depois uma espécie de alerta que seus sistemas de processamento não conseguiam desligar mesmo quando tudo mais falhava.

Onde?

A cela era pequena demais para se levantar completamente. As paredes eram de coral morto, recuperado de alguma estrutura antiga que o regime devastara. O chão era de basalto frio. E havia grades — metal retorcido, improvisado, mas eficaz.

Prisioneiro.

A palavra flutuou em sua mente com significado novo. Não "ferramenta". Não "arma". "Prisioneiro". Alguém que foi capturado. Alguém que falhou.

Falhou.

Setenta e três execuções perfeitas. E uma falha.

Vorn tentou se mover. O corpo respondeu — parcialmente. A ferida que Shar'ek infligira ainda estava presente, cortando do ombro até as costelas. Mas alguém aplicara algo — bálsamo de keth, talvez, ou whatever que a resistência usava para tratar feridas. A dor havia diminuído. De insuportável para apenas presente.

Tempo desconhecido.

Seus sistemas de processamento tentavam calcular. Quanto tempo desde a batalha com Shar'ek? Horas? Dias? A abstinência havia quebrado seu relógio interno, deixando-o em um estado de atemporalidade que não conseguia processar.

A porta se abriu.

Vorn se preparou para ataque — músculos tensionando, lâminas ósseas começando a se expor, sistemas de combate tentando se ativar.

Nada aconteceu.

Os sistemas falharam. As lâminas não se expuseram completamente. Os músculos tremiam com esforço que não se sustentava.

Abstinência ainda presente. Estado funcional: aproximadamente 20%.

Ela entrou.

Tha'lei.

A jovem Kelu'lei do confronto no perímetro. A que o marcara com luz. A por quem hesitara. A por quem Shar'ek o atacara. A razão pela qual ele estava... onde quer que estivesse.

Ela carregava um recipiente. Brilhava com luz fraca — keth. Não o keth modificado que o regime fornecia, concentrado e processado. Algo mais diluído. Mais natural.

Fonte: desconhecida. Estado: questionável.

— Você precisa comer. — A voz dela era baixa, como se ela estivesse aprendendo a falar com prisioneiros.

Vorn não respondeu.

— Eu sei que você ouviu. — Tha'lei se aproximou das grades, mantendo distância segura. — Os sentinelas me disseram que seus sistemas estão tentando se recalibrar.

Vorn ainda não disse nada.

— O keth é das correntes profundas. — Ela empurrou o recipiente por uma abertura nas grades. — Não é muito. Mas vai ajudar.

Vorn olhou para o keth. Depois para ela.

— Por que estou vivo?

A pergunta saiu mais áspera do que pretendia. A garganta ainda estava seca, a voz ainda gasta pela abstinência.

Tha'lei não respondeu imediatamente.

— Keth'ra disse para mantê-lo vivo. — Ela observava-o com olhos que viam demais. — Ela diz que você tem informações.

— Informações.

— Sobre o regime. Sobre Vo'kethara. Sobre whatever que você possa nos contar.

Vorn olhou para as grades. Para a Kelu'lei do outro lado. Para a marca dourada em sua própria mão — pulsando em sincronia com a rachadura na carapaça dela.

— E se eu não quiser falar?

Tha'lei pensou na pergunta.

— Então você morre de fome. — Ela disse isso sem crueldade. Apenas como fato. — O conselho está dividido. Alguns querem você vivo. Outros... bem. Setenta e três corpos são muitos motivos.

Vorn fechou os olhos.

Setenta e três.

— Você não me matou. — A voz de Tha'lei mudou. Mais baixa. Mais... questionadora. — Por quê?

Vorn lutou com a resposta.

— Eu não sei.

— Isso não é resposta.

— É a única que tenho.

Vorn abriu os olhos. Encontrou os dela — âmbar escuro, como os de Kel'om, como os de alguém que ele deveria ter esquecido mas não conseguia.

— Meus sistemas... ele pausou, procurando as palavras certas. ...meus sistemas falharam. Quando te vi. Quando... quando você me olhou.

— Como eu te olhei?

— Como se eu fosse pessoa. — A confession saiu antes que ele pudesse pensar no que significava. — Ninguém nunca me olhou assim.

Tha'lei ficou em silêncio por um longo momento.

— Você não me matou — disse ela finalmente. — E eu não vou te deixar morrer. Pelo menos, não hoje.

Ela se virou para partir.

— Tha'lei.

Ela parou.

— A marca — disse Vorn, levantando a mão. — O que ela é?

Tha'lei olhou para a marca dourada pulsando em sua mão.

— Eu não sei.

— Você me marcou. Durante o confronto. Luz saiu de sua carapaça e entrou em mim.

— Eu sei. — Tha'lei se voltou completamente para encará-lo. — Eu não sei como. Eu não sei por quê. Mas sei que existe. E sei que conecta a gente.

Vorn olhou para ela.

Por que ela não tinha medo? Por que ela não o odiava? Ele tinha matado setenta e três pessoas. Setenta e três corpos. Setenta e três famílias. E ela...

Ela apenas o olhava.

Como se ele fosse pessoa.

Escolha.

Pela primeira vez em setenta e quatro caçadas, Vorn escolheu algo que não era morte.

Ele tomou o keth.

Primeiro dia

O choque metabólico foi quase imediato.

Vorn sentiu o keth entrar em suas guelras, viajar para o estômago, ser processado pelo corpo que clamava por combustível. Mas o combustível era errado. Não era o keth modificado, concentrado, projetado para alimentar as modificações que o regime implantara. Era keth natural. Diluído. Mais suave.

Seus sistemas rejeitaram.

Espécie desconhecida. Composição incompatível. Iniciando expurgação...

Vorn vomitou.

O corpo expeliu o keth tão rapidamente quanto o ingerira, deixando-o fraco, tremendo, com gosto de mineral que não conseguia identificar.

Tha'lei estava lá.

— Isso é normal.

Vorn olhou para ela. Não a vira chegar. Os sistemas de detecção falhavam em intervalos crescentes.

— O quê?

— O choque metabólico. — Ela estava sentada do outro lado das grades, agora. Observando. Não com curiosidade, mas com... interesse? Preocupação? Ele não conseguia identificar. — Seu corpo está acostumado ao keth modificado. O normal é... demais e de menos ao mesmo tempo.

Vorn se limpou, tremendo.

— Eu não posso... ele pausou, recuperando fôlego. ...eu não posso processar isso.

— Você vai precisar aprender. — Tha'lei empurrou outro recipiente pela abertura. — Tente de novo. Dessa vez, mais devagar.

Vorn olhou para o keth. Depois para ela.

— Por que você está fazendo isso?

— Fazendo o quê?

— Me ajudando. Eu sou... ele pausou, procurando as palavras certas. ...eu sou o inimigo.

Tha'lei pensou na pergunta.

— Você não me matou.

— Eu já te disse. Não foi escolha.

— Foi sim. — Tha'lei deu um passo em direção às grades. — Você escolheu não atacar. Você escolheu recuar quando Keth'ra veio. Você escolheu me deixar viva.

Vorn não respondeu.

— Isso conta como escolha — continuou ela. — E escolha conta como algo.

Vorn olhou para ela. Para os olhos âmbar escuro que viam demais.

— Você é muito idealista.

— E você é muito pessimista. — Tha'lei sorriu — não sorriso completo, mas algo que talvez se transformasse em sorriso um dia. — Talvez a gente se encontre no meio.

Ela apontou para o keth.

— Tente. Devagar. Pequenos goles. Deixe o corpo se ajustar.

Vorn hesitou.

Então tomou.

Dessa vez, o corpo não rejeitou imediatamente. O keth ficou, processando-se lentamente, adaptando-se. A dor diminuiu. Os tremores suavizaram.

Progresso.

— Veja? — Tha'lei ainda estava lá, observando. — Você pode aprender.

Vorn olhou para ela.

— Aprender o quê?

— Ser pessoa.

A resposta o pegou de surpresa. Vorn não tinha resposta para isso.

Segundo dia

O silêncio era cômodo agora.

Vorn não sabia quando mudara. Talvez durante o segundo choque metabólico, quando Tha'lei lhe ensinara a respirar através da dor, a aceitar o keth normal em vez de lutar contra. Talvez depois, quando ela trouxera comida — pequenos crustáceos das correntes profundas, sabor que ele nunca conhecera.

Ou talvez... talvez sempre fosse cômodo.

E ele apenas não soubera.

— Você nasceu assim?

A pergunta saiu do nada. Vorn não planejava perguntar. Não estava certo se queria saber. Mas a pergunta estava ali, flutuando entre eles como uma bolha de ar que não podia ser ignorada.

Tha'lei olhou para ele.

— Nascer como o quê?

— Com a... ele pausou, procurando as palavras certas. ...com a luz. Com a rachadura. Com whatever que faz você ser... você.

Tha'lei tocou a rachadura em sua carapaça. A marca pulsou em resposta.

— Eu nasci com a rachadura. — Ela disse isso como fato, não como confession. — Kel'om dizia que eu nasci três dias depois de Onu'flare. Que a luz da erupção ainda estava em tudo, ainda estava em todos. E que alguma coisa... alguma coisa entrou em mim.

— Onu'flare.

— A erupção de keth. Acontece a cada... ela pausou, calculando. ...cinquenta ciclos? Sessenta? Ninguém sabe ao certo. O regime apaga os registros.

Vorn processou a informação.

— Você foi... feita. — Ele disse a palavra com cuidado. — Pela erupção.

Tha'lei sorriu — triste, mas sorriu.

— Talvez. Ou talvez eu apenas tenha nascido em um momento em que tudo estava brilhando. — Ela se aproximou das grades. — Você nasceu assim? Com as modificações?

Vorn sentiu o corpo endireitar-se automaticamente — resposta pavloviana à pergunta.

— Não.

— O que aconteceu?

Vorn lutou com a memória.

— Eu tinha três ciclos. — As palavras vieram com dificuldade, como se ele estivesse puxando pedaços de algo que não queria ser lembrado. — O regime veio. Disseram que eu tinha... potencial. Disseram que eu poderia ser... útil.

— Útil para o quê?

— Para matar. — Vorn disse isso sem emoção. Apenas fato. — Eles me levaram para Vo'kethara. Para a sala branca. Fizeram... modificações. Injeções. Cirurgias. Whatever que precisassem fazer para me transformar em... no que eu me tornei.

Tha'lei estava em silêncio. Observando. Ouvindo.

— Você nunca escolheu.

— Não. — Vorn olhou para suas próprias mãos. — A primeira escolha que fiz... foi com você.

Tha'lei não disse nada.

— Eu não escolhi ser isso — continuou Vorn. — Eles me fizeram. Eles me transformaram. Eles me usaram. Setenta e três vezes. Setenta e três vidas apagadas pela lâmina que me fizeram ser.

Ele encontrou os olhos dela.

— Eu não sou pessoa. Sou... produto.

Tha'lei permaneceu em silêncio por um longo momento.

— Eu também sou produto — disse ela finalmente. — Da profecia. Da expectativa. De um mundo que precisa que eu seja algo que talvez não seja.

Vorn não respondeu.

— Kel'om me escolheu — continuou ela. — Me ensinou os cantos. Me preparou para... para whatever que eu supostamente vou fazer. Mas eu não escolhi isso. Eu não pedi para ser Keth'lei. Eu não pedi para ter o peso de todo mundo em minhas nadadeiras.

Ela olhou para Vorn.

— A diferença é que todo mundo me vê como salvadora. E você... todo mundo vê você como monstro.

Vorn pensou sobre isso.

— Talvez... — ele pausou, procurando as palavras certas. ...talvez sejam as duas coisas erradas.

Tha'lei sorriu — dessa vez, sorriso completo.

— Talvez.

O silêncio retornou, mas era diferente agora. Não tenso. Não pesado. Apenas... presente.

Como dois produtos de sistemas que não escolheram, tentando figure out como ser pessoas.

Terceiro dia

A marca pulsava mais forte hoje.

Vorn notou assim que acordou. A marca dourada em sua mão — linhas entrelaçadas como raízes ou veias — estava brilhando mais forte, pulsando em ritmos que não correspondiam a nada que ele pudesse identificar.

E quando Tha'lei entrou, a marca pulsou mais.

Sincronia.

— Está mais forte hoje — disse ela, sem preâmbulo.

Vorn assentiu.

— Eu notei.

Tha'lei se aproximou das grades. Mais perto do que nunca. Perto o suficiente para tocar.

— Você sabe o que é?

— Não. — Vorn olhou para a marca. — Você me marcou. Durante o confronto. Luz saiu de sua carapaça e entrou em mim. Não sei como. Não sei por quê.

— Eu também não sei.

Ela estendeu a mão através das grades. Vorn recuou inicialmente — resposta pavloviana, treino de anos. Então parou. Deixou-a tocar.

Os dedos de Tha'lei encontraram a marca em sua mão.

A pulsação aumentou. Mais forte. Mais rápida. Como dois corações batendo no mesmo ritmo impossível.

— Isso não é natural — disse ela. — Isso... isso é something else.

Vorn olhou para ela. Para a rachadura em sua carapaça, também pulsando.

— Você sente? — perguntou.

— Sinto. — Tha'lei não removeu a mão. — É como... como conexão. Como se eu pudesse sentir o que você sente. Seu medo. Sua dor. Sua... solidão.

Vorn não respondeu.

— Você esteve sozinho por muito tempo — disse ela. — Não sozinho fisicamente. Mas... realmente sozinho.

Vorn fechou os olhos.

Como ela sabe?

— Eu não tive... ele pausou, procurando as palavras certas. ...eu não tive ninguém. Desde que o regime me pegou. Apenas... ordens. Designações. Execuções.

— E agora? — A pergunta de Tha'lei era baixa. Quase sussurro.

— Agora... — Vorn abriu os olhos. Encontrou os dela. ...agora eu tenho você observando através das grades.

Tha'lei sorriu.

— Isso é tão triste quanto parece ser.

Vorn achou que deveria sentir ofendido. Mas não sentiu. Apenas... leve. Como se algo que não sabia que carregava tivesse sido removido.

— Você quer saber por que hesitei? — A pergunta saiu antes que ele pudesse pensar nela.

Tha'lei assentiu.

— Porque você me olhou como se eu fosse pessoa.

Silêncio.

Longo. Pesado. Significante.

Tha'lei não respondeu. Não tinha resposta.

Mas pelo tempo em que ela partiu, deixando-o sozinho na cela com a marca pulsando em sua mão, Vorn percebeu algo.

Pela primeira vez desde que o regime o levara, aos três ciclos, ele não queria estar morto.

Escolha.

E escolher doía mais do que qualquer lâmina.

Mas talvez... talvez a dor não fosse sempre ruim.

Talvez a dor fosse só o preço de se sentir humano.

Quarto dia

Keth'ra veio pela primeira vez.

Vorn soube quem era antes de ela falar. A maneira como se movia — eficiente, econômica, como se cada gesto tivesse sido calculado para máximo impacto. As cicatrizes em sua carapaça, mapa de dor que ele reconhecia como alguém que sobrevivera ao impossível. Os olhos — duros, observando tudo, revelando nada.

— Você está se recuperando.

Não era pergunta. Era observação.

Vorn assentiu.

— O keth normal está... processável. Ainda causa desconforto. Mas o corpo está se adaptando.

Keth'ra deu um passo em direção às grades.

— Tha'lei diz que você tem informações.

Vorn pensou sobre isso.

— Informações sobre o quê?

— Sobre o regime. Sobre Vo'kethara. Sobre whatever que você possa nos contar que nos ajude a sobreviver.

Vorn olhou para ela.

— E se eu disser? O que acontece comigo?

— Isso depende. — Keth'ra não recuava. — Do que você disser. De quanto for verdadeiro. De quanto for útil.

— E se for tudo verdadeiro? Tudo útil?

Keth'ra pensou na resposta.

— Então talvez você não seja executado.

— Talvez?

Keth'ra'lei, Vorn. — Ela usou a saudação formal, mas havia algo em seu tom que Vorn não conseguia identificar. — *(Caminho de escolha).*

— O que isso significa?

— Significa que você tem uma escolha. — Keth'ra se aproximou ainda mais. — Você pode escolher nos dar informações. Em troca, talvez você viva. Ou você pode escolher não nos dar informações. Em troca, certamente você morre.

Vorn pensou sobre isso.

— Eu não tenho lealdade ao regime — disse ele finalmente. — Eles me fizeram o que sou. Eles me usaram. Eles me teriam me deixado morrer em Null'kai.

— E por quê? — A pergunta de Keth'ra foi genuína.

Vorn olhou para a marca em sua mão. Pulsando. Conectando.

— Porque escolhi não matar a Kelu'lei.

Keth'ra permaneceu em silêncio por um longo momento.

— Você hesitou. — Ela disse isso como fato, não como acusação. — Você recusou a designação. Você desertou.

— Sim.

— Por quê? — A pergunta de Keth'ra carregava peso. Por que você hesitou? Por que você recusou? Por que você desertou?

Vorn pensou na pergunta. Pensou no momento no perímetro, quando Tha'lei o olhou como se fosse pessoa. Pensou na marca pulsando em sua mão. Pensou na certeza de que matá-la seria errado, embora ele não soubesse o que "errado" significava.

— Porque pela primeira vez em setenta e quatro caçadas — disse ele finalmente — ...eu tive escolha.

Keth'ra observou-o. Nada em seu rosto revelava o que ela pensava.

— E agora? — perguntou ela. — Agora você tem outra escolha. Pode nos ajudar. Ou pode morrer.

Vorn olhou para ela. Para as cicatrizes que contavam histórias de tortura e sobrevivência. Para os olhos que viam demais. Para a mulher que liderava a resistência em um mundo onde resistência era punível por morte.

— Eu vou ajudá-los — disse ele. — Mas não por você.

— Então por quê?

Vorn pensou em Tha'lei. Na jovem Kelu'lei que o marcara com luz e olhara para ele como se fosse pessoa.

— Por ela.

Keth'ra não disse nada.

Mas quando ela partiu, Vorn teve a impressão de que aprovava. Ou talvez apenas compreendia.

Talvez fossem as duas coisas.

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