Capítulo Doze

Histórias na Escuridão

Três dias depois da missão, o Coração ainda celebrava.

Tha'lei ouvia os ecos — vozes abafadas pelas paredes de coral morto, risos que se misturavam à corrente rarefeita de Null'kai, algo parecido com música improvisada nos túneis mais afastados. A resistência precisava disso. Comemorar era provar que existiam para além da sobrevivência.

Ela não conseguia participar.

Sentada na câmara de observação — um nicho natural na rocha de onde se vigiava a entrada norte do Coração — Tha'lei fitava a escuridão. A água viscosa, pesada, sem keth, preenchia tudo com sua presença muda. Três dias, e Mira'kai ainda era a primeira coisa em que pensava ao acordar.

O sorriso rápido. As escamas brilhantes. O toque no ombro de Sor'enn.

Bloom.

A marca em sua mão aqueceu — reação ao pensamento ou a Vorn se aproximando. Tha'lei já não distinguia uma coisa da outra.

— Sor'enn não come desde ontem. — A voz de Vorn chegou das sombras atrás dela. Declaração. Sem inflexão. — Thal'ven pediu para sair do leito. Os curandeiros negaram.

Tha'lei não virou.

— As mãos dele estão bem?

— Funcionam. — Vorn se posicionou ao lado dela, observando a mesma escuridão. — É o suficiente para ele.

Mas não para mim. Para mim, nada é suficiente agora.

No terceiro dia, Keth'ra voltou.

* * *

A líder da resistência entrou pelo túnel sul sem aviso. Duas sentinelas a flanqueavam, e Vel'ra — que fora ao seu encontro no perímetro externo — nadava atrás, o recipiente de veneno oscilando em seu pescoço.

Tha'lei reconheceu Keth'ra antes de vê-la. Pela maneira como a água se movia — deslocamento eficiente, sem desperdício, cada gesto medido com a economia de quem calculava o custo de cada movimento há mais de quarenta ciclos. Depois veio a silhueta: carapaça pesada marcada por cicatrizes químicas, olhos que avaliavam tudo antes de qualquer reação.

A sala de briefing se encheu rapidamente. Tha'lei, Vorn, Vel'ra, Onu'rei. Sor'enn veio por último — arrastando-se, escamas manchadas do sangue de Mira'kai que ele não lavara, olhos que habitavam outro lugar.

Keth'ra ouviu tudo.

O relatório da missão. A sabotagem bem-sucedida. A emboscada dos Shar'nu. Thal'ven ferido. Mira'kai morta. A fuga pela corrente profunda. O retorno de Sor'enn sozinho.

Não interrompeu uma única vez.

Quando Tha'lei chegou a Shar'ek — a designação especial, os doze Shar'kai de combate, a missão de encontrar e destruir o Coração — Keth'ra permaneceu imóvel. Nenhuma mudança de expressão. Nenhuma contração muscular. Apenas os olhos, que se estreitaram um milímetro. Talvez dois.

O silêncio que se seguiu durou tempo demais.

— Shar'ek — disse Keth'ra, finalmente. A palavra saiu limpa, sem peso emocional, como se fosse coordenada num mapa. — Quanto tempo?

— Semanas — respondeu Vel'ra. — Talvez menos.

Keth'ra assentiu uma vez.

— Nenhuma missão nova — disse. — A partir de agora, o Coração se fecha. Fortificamos as entradas, revisamos as rotas de fuga, preparamos contingências para evacuação. — Encontrou os olhos de Vorn. — Você conhece os métodos de rastreamento dos Shar'kai. Quais são as fraquezas?

— Dependem de rastros químicos. — Vorn respondeu sem hesitar. — Sangue, keth processado, resíduos biológicos. Null'kai limita o alcance. A água morta degrada assinaturas mais rápido.

— Então não deixamos rastros. — Keth'ra se voltou para a sala. — Ninguém sai do perímetro sem autorização direta. Patrulhas reduzidas ao mínimo. Comunicação apenas por rotas seguras. — Sua voz não subia nem descia. Era lâmina nivelada, constante. — Vamos deixar que nos procurem no escuro.

Onu'rei ergueu a mão.

— E se encontrarem?

Keth'ra o encarou.

— Então lutamos. — A frase não era bravata. Era constatação geológica, fato como rocha e pressão. — Mas primeiro, damos a eles o mínimo possível para encontrar.

Sor'enn levantou-se. Todos viraram.

Seus olhos estavam opacos, sem foco, mas a voz saiu com clareza inesperada.

— Mira'kai morreu para que esta missão fosse vitória. — Cada palavra custava esforço visível. — Se Shar'ek vem, então ela morreu para que tivéssemos tempo de nos preparar. Não desperdicem isso.

Saiu da sala antes que alguém respondesse.

Keth'ra observou-o ir. Algo cruzou seu rosto — breve, indefinível — e desapareceu.

— Ele tem razão — disse ela. — Vamos trabalhar.

* * *

No sexto dia, a escuridão de Null'kai atingiu seu ponto mais denso.

Acontecia a cada poucos ciclos — algo nas correntes profundas alterava o que restava de bioluminescência residual nas paredes do Coração, apagando até os últimos véus de luz esverdeada que tornavam a base habitável. A escuridão era tão completa que o corpo esquecia que possuía olhos.

E nessas noites, havia uma tradição.

Histórias.

Tha'lei soubera por Onu'rei — o Kelu'nu mais velho organizara a reunião na câmara central, o espaço mais amplo do Coração, onde cabiam quase todos os sessenta e poucos habitantes da base. Não havia obrigação. Não havia agenda. Apenas a escuridão, e dentro dela, vozes que se ofereciam ao silêncio.

— Quando não se pode ver — dissera Onu'rei — sobra apenas o que se pode dizer.

A câmara central se encheu devagar. Corpos que Tha'lei identificava pelo toque, pelo cheiro, pelo deslocamento de água. Finn'ra de escamas gastas. Kelu'nu de carapaças rachadas. Filhotes que nunca conheceram outro lar além daquele coral morto. Curandeiros, batedores, sentinelas saindo do turno.

Keth'ra veio. Sentou-se na borda, distante dos demais, mas presente. Vorn se posicionou perto da entrada, costas contra a parede — vigiando mesmo agora, mesmo aqui.

Sor'enn não veio. Thal'ven também não — os curandeiros o mantinham confinado, as mãos enfaixadas em compressas de alga medicinal. Ninguém os forçou.

A escuridão era absoluta. Respirações. Correntes mínimas. O som dos corpos existindo juntos.

Onu'rei abriu.

Contou sobre o recife onde nascera — Kelu'shara, destruído pelo regime quando ele tinha cinco ciclos. A voz grave, sem pressa, desenhando na escuridão um mundo que ninguém mais veria. Os corais vivos. As correntes quentes. O modo como o keth fluía livre, como respiração de algo imenso e benigno.

Depois dele, uma Kelu'nu chamada Teth'ra — que Tha'lei conhecia apenas de vista — falou sobre sua mãe. Curandeira. Presa por tratar feridos que o regime considerava traidores. Nunca devolvida.

Depois, um Finn'ra jovem que chorou antes de terminar a primeira frase.

A comunidade o segurou no escuro. Mãos. Nadadeiras. O som de respirações que acompanhavam a dele até que voltasse a ser regular.

Tha'lei ouvia tudo. Sentia a câmara como instrumento — cada voz uma corda, cada silêncio uma pausa que pertencia à composição.

Kel'om saberia o que cantar agora. Saberia como transformar isso em melodia.

Mas Kel'om está morto. E a voz que sobrou é a minha.

O silêncio se fez. A escuridão esperou.

— Eu tive um professor — disse Tha'lei.

Sua voz soou estranha para si mesma — mais jovem do que esperava, mais frágil. Na escuridão, não havia carapaça para esconder. Não havia marca dourada pulsando para dar coragem. Apenas a voz e o que ela carregava.

— O nome dele era Kel'om. Kelu'nu. Mais velho do que qualquer um que eu já conheci. A carapaça dele era tão marcada que parecia mapa — cada rachadura contava uma história, cada cicatriz era rota que ele percorrera. — Tha'lei respirou. — Ele me ensinou os cantos quando eu era filhote. Os Cantos dos Caminhos. Sabem o que são?

Murmúrios. Alguns sabiam. Outros conheciam apenas fragmentos, ecos de ecos.

— São mapas — continuou ela. — Melodias que guardam rotas migratórias, correntes de keth, caminhos que nosso povo usava antes do regime transformar o mundo em propriedade. — A rachadura em sua carapaça latejou, surda. — Kel'om os cantava para mim todas as noites. Baixinho, porque cantar era crime. Baixinho, porque o preço era dissolução. E mesmo assim, todas as noites.

Silêncio denso. A escuridão era parede, chão, teto — continha tudo.

— Ele foi preso. — As palavras doíam menos do que Tha'lei esperava. Talvez porque a dor já houvesse se transformado em outra coisa — não menor, mas diferente. Estrutural. — Eu assisti. De uma fenda na borda da praça. Espremida entre duas paredes de coral, tão apertada que mal respirava. Vi os Shar'nu ao redor dele. Vi o Vora'makai ler a sentença. — Engoliu. — E vi Kel'om cantar.

A câmara inteira prendeu o ar.

— Ele cantou enquanto morriam. Enquanto as lâminas desciam. Cantou os Caminhos — não inteiros, porque a quarta lâmina silenciou a voz antes do último verso. Mas cantou até onde o corpo permitiu, como se cada palavra fosse mais importante que o sangue que perdia. — Tha'lei sentiu algo quente em seus olhos. — E quando o bloom veio... quando a luz subiu dele como se o corpo inteiro estivesse completando o canto que a voz não pôde... eu gravei. Cada nota. Cada palavra. Inclusive as que ele não conseguiu pronunciar.

Silêncio.

— Eu não sou líder. — A confissão saiu sem planejamento. — Não sei liderar. Kel'om não me ensinou isso. Ensinou a cantar, a lembrar, a carregar o que não pode ser destruído. E é isso que eu sei fazer. — Ela ouviu sua própria respiração como se fosse de outra pessoa. — Mira'kai morreu na minha primeira missão. Morreu porque eu fiz um plano e mandei pessoas executá-lo. E o plano funcionou, e a estação caiu, e trinta por cento do keth oriental se foi. E Mira'kai se foi junto.

Ninguém falou.

— Eu carrego o nome dela agora. — Tha'lei não sabia para quem falava — se para a escuridão, se para si mesma, se para Mira'kai de algum modo. — É o primeiro nome que carrego. Vorn carrega setenta e três. Keth'ra carrega tantos que perdeu a conta. E eu carrego um, e já é pesado demais.

A escuridão absorveu as palavras.

Depois, lentamente, alguém começou a bater — nadadeira contra rocha, ritmo lento, constante. Outros se juntaram. Não era aplauso. Era reconhecimento. Batimento de coração coletivo dizendo: estamos aqui, ouvimos, sabemos.

Tha'lei respirou.

* * *

O silêncio retornou. Ninguém parecia disposto a quebrá-lo — o peso das palavras de Tha'lei ainda ocupava a câmara, espesso como a própria escuridão.

Então Vorn falou.

A voz vinha do canto onde ele se apoiava na parede, e era diferente. Não a voz militar, factual, cortante que todos conheciam. Esta voz era cuidadosa, como quem caminha sobre superfície que pode ceder.

— O recruta tinha seis ciclos quando foi separado.

Terceira pessoa. A câmara percebeu. Tha'lei percebeu. Ninguém disse nada.

— Seis ciclos. Tirado do tanque de desenvolvimento noturno. Sem aviso. Levado para instalação subterrânea sem nome, sem janelas, sem correntes.

As palavras saíam em fragmentos. Frases secas. Entre elas, silêncios que continham o que as frases não comportavam.

— Primeiro protocolo: isolamento. Quarenta dias sem contato. Sem voz. Sem toque. Apenas paredes e água estagnada e comida que entrava por uma fenda. — Silêncio. — O recruta parou de chorar no décimo quinto dia. Não porque aprendeu a ser forte. Porque esqueceu como se chorava.

Tha'lei sentiu a marca aquecer — não com a pulsação habitual, mas com algo constante, como febre.

— Segundo protocolo: dor controlada. Estímulos calibrados para ensinar o corpo a funcionar sob estresse. — As frases ficaram mais curtas. Mais duras. — Choques elétricos. Pressão. Privação sensorial seguida de excesso. O objetivo não era punição. O objetivo era recalibração.

Alguém na câmara respirou com força. Vorn continuou.

— O recruta aprendeu que dor é informação. Que medo é ineficiência. Que nomes são irrelevantes. — Pausa longa. — Deram-lhe número primeiro. Depois designação. Depois função. Nome era a última coisa que um Shar'nu precisava.

A escuridão parecia comprimir-se ao redor da voz dele.

— No quarto ciclo de treinamento, o recruta foi emparelhado. Parceiro de combate. Outro recruta. Mesmo tamanho, mesma modificação, mesmo protocolo. — Tha'lei sabia o nome antes de ele dizer. — Shar'ek.

A palavra ficou suspensa na escuridão.

— Treinavam juntos. Comiam juntos. Dormiam no mesmo alojamento. Não eram amigos. Não existia essa palavra. Eram... componentes. Duas lâminas afiadas uma contra a outra.

Vorn parou. O silêncio se estendeu — cinco batimentos, seis. Tha'lei sentia algo que não era dor, nem medo. Era esforço. O esforço de alguém construindo ponte sobre abismo que engolira a própria infância.

— Shar'ek era melhor. — A frase foi cortada, factual, como as que Vorn usava para descrever rotas de patrulha. — Mais rápido. Mais preciso. Mais... completo. O recruta era segundo. Sempre segundo.

Outra pausa.

— No sétimo ciclo, a primeira execução. Alvos designados. Dissidentes capturados. O recruta recebeu a lâmina e a ordem. — A voz mudou, tão sutilmente que apenas Tha'lei notou. Uma fissura. — Eu...

A palavra ficou no ar.

Vorn não a corrigiu. Não voltou à terceira pessoa. Ficou naquele espaço entre o recruta e o eu, entre o que fora feito dele e o que ele era.

— Eu não lembro o rosto do primeiro. — A voz era quase inaudível. — Não lembro de nenhum dos setenta e três. E não sei se é porque os apagaram de mim, ou porque eu os apaguei de mim mesmo.

A câmara estava em silêncio absoluto. Nenhuma respiração parecia audível. Apenas Vorn, e a escuridão, e as palavras que saíam dele como fragmentos de algo que fora inteiro um dia e nunca mais seria.

Ele não concluiu. Não havia conclusão. Apenas o silêncio se fechando sobre o que dissera, como água sobre ferida.

E a comunidade do Coração — aquelas sessenta e poucas vidas comprimidas no escuro — não reagiu com horror. Tha'lei sentiu isso com a mesma clareza com que sentia as correntes: o silêncio não era repulsa. Era reconhecimento. Muitos ali também haviam sido recortados pelo regime. Moldados. Diminuídos. Todos perderam pedaços de si mesmos — em torturas, em fugas, em ciclos de sobrevivência que arrancavam tudo que não fosse essencial.

Alguém — Tha'lei não identificou quem — estendeu uma nadadeira na escuridão e tocou o braço de Vorn.

Ele não se afastou.

* * *

Keth'ra se levantou.

Na escuridão total, o movimento foi som antes de ser qualquer outra coisa — o ranger de carapaça contra rocha, o deslocamento de água pesada. A câmara inteira se orientou para ela, como corrente buscando centro.

— Vocês conhecem minhas cicatrizes — disse Keth'ra. A voz era a de sempre: precisa, seca, sem consolo. — Queimaduras químicas. Ácido de keth concentrado, aplicado em padrões. Alguns de vocês viram quando me troquei. Alguns fingiram não ver. — Sem acusação. Sem amargura. Observação. — Vou mostrar de novo. Não porque preciso de piedade. Porque precisam entender.

O som de carapaça sendo removida. Peças de armadura improvisada — placas de coral morto e metal recuperado que Keth'ra usava sobre as cicatrizes mais expostas — descendo uma a uma.

Tha'lei não via. Ninguém via. Mas o som era suficiente — e, para quem estava perto, o toque da água contra tecido vivo que deveria estar protegido por carapaça e não estava mais.

— A primeira vez, eu tinha dezenove ciclos — disse Keth'ra. — Fui presa numa operação que matou quatorze dos nossos. Eu era a mais jovem. Acharam que seria a mais fácil de quebrar.

A voz não tremia. Não acelerava. Mantinha o ritmo de quem relata coordenadas.

— Queimaram da articulação do braço direito até a base da carapaça dorsal. Devagar. Aplicação controlada — eles tinham método, tinham padrões, tinham objetivos. Queriam nomes. Localizações. Rotas. — Silêncio breve. — Eu dei informações falsas. Três localizações que não existiam. Custou-me doze dias de correção até perceberem que eu mentira.

— E depois? — A pergunta veio de algum lugar na câmara. Voz jovem, trêmula.

— Depois me soltaram. — Keth'ra fez uma pausa estranha — não dramática, mas como se medisse o que podia dizer. — Acharam que eu estava quebrada. Que voltaria para os meus e seria exemplo do que acontece com quem resiste.

— E voltou — disse Onu'rei.

— Voltei. — A voz de Keth'ra endureceu uma fração. — Mas meus não estavam mais lá. O regime executou minha família enquanto eu estava presa. Mãe. Pai. Dois irmãos. Uma irmã que tinha três ciclos. — As palavras vinham sem ornamento, sem melodia, como pedras sendo colocadas sobre mesa. — Dissolução. Pública. No recife onde eu cresci.

O ar da câmara ficou mais pesado.

— Não voltei como exemplo — continuou Keth'ra. — Voltei como outra coisa. — A pausa novamente, aquela pausa peculiar, como se algo por trás das palavras quisesse emergir e ela o segurasse. — Entrei na resistência. Lutei. Perdi gente. Fui presa de novo, seis ciclos depois.

— A segunda vez — murmurou Vel'ra, do outro lado da câmara.

— A segunda vez.

Keth'ra não descreveu a segunda tortura. Não deu detalhes. E essa ausência era mais perturbadora do que qualquer relato — porque Keth'ra descrevera a primeira com precisão cirúrgica, sem omissão, sem eufemismo. A segunda, porém, veio envolta em silêncio. Como terreno que ela contornava ao caminhar.

— Eu entrei daquele jeito — disse, finalmente. — Saí assim.

A frase era simples. O que continha, não.

Tha'lei sentiu — não com a marca, não com percepção treinada, mas com o instinto de quem ouve melodia e percebe uma nota que não pertence à escala. Havia algo na segunda prisão de Keth'ra. Algo que a transformara de modo diferente da primeira. A primeira a endurecera. A segunda a tornara outra coisa — não mais dura, mas mais profunda, como corrente que muda de superficial para abissal.

O que você encontrou lá dentro, Keth'ra?

A pergunta se formou na mente de Tha'lei e ficou.

— Não peço compaixão — disse Keth'ra. O som de armadura sendo recolocada. — Não peço compreensão. Peço que entendam por que aceito certos custos. Por que não negocio com meias-medidas. — A última placa de coral se encaixou. — Porque sei o preço inteiro. Paguei duas vezes. E estou disposta a pagar de novo, se for necessário.

O silêncio que se seguiu pertencia a ela. Ninguém o quebrou.

Keth'ra sentou-se de volta na borda da câmara, e a escuridão a absorveu como se nunca tivesse saído.

* * *

As histórias continuaram por mais algum tempo — vozes menores, fragmentos, nomes que precisavam ser ditos em voz alta para continuarem existindo. Mas a noite estava se esgotando, e os corpos, exaustos de carregar o peso do que fora compartilhado, começaram a se dispersar.

Tha'lei ficou.

Vorn ficou.

A câmara esvaziou devagar, como maré se retirando, até que sobraram apenas os dois e a escuridão e o som da própria respiração.

— Você nunca tinha contado isso — disse Tha'lei.

— Não.

— Por que agora?

Vorn demorou a responder. Quando falou, a voz era baixa, sem a rigidez habitual.

— Porque na escuridão, não tenho que ver os rostos enquanto falo.

A confissão era tão simples que doía.

Ficaram em silêncio. A escuridão os cercava por todos os lados, mas o espaço entre os dois parecia menor que antes.

— Setenta e três — disse ela, finalmente. — Você carrega setenta e três nomes. Eu carrego um. — Virou a palma para cima na escuridão, gesto que ninguém via. — Como se carrega setenta e três?

— Não se carrega. — A resposta veio sem demora. — O peso não diminui. Eu apenas... continuo andando.

— Isso é desistência disfarçada.

— Não existem boas respostas para perguntas ruins. — Vorn se mexeu; Tha'lei ouviu o deslocamento de água. — Mira'kai é seu primeiro nome. Kel'om é o segundo. Vai haver outros. E você vai continuar andando também. Porque a alternativa é parar, e quem para em Null'kai morre de frio.

Ele fala como quem descreve terreno. Sem consolo. Sem mentira.

— Shar'ek — disse Tha'lei. — Conte-me sobre ele.

Vorn ficou em silêncio por tempo suficiente para que ela achasse que não responderia.

— O melhor. — Duas palavras, carregadas de algo difícil de nomear. — Em tudo. Combate, rastreamento, execução. Os instrutores o usavam como referência. Modelo. O que um Shar'kai deveria ser.

— E você?

— Segundo. — Sem amargor. Sem vergonha. Fato. — Sempre segundo. Shar'ek era a lâmina. Eu era a sombra da lâmina.

— Ele vai nos encontrar?

— Ele vai tentar. — A voz de Vorn endureceu, e Tha'lei sentiu a tensão dele como se fosse a própria. — Shar'ek não desiste. Não é programado para desistir. É programado para completar.

— Então como o derrotamos?

— Não sei. — A honestidade era dura como basalto. — Eu era segundo. E o segundo não vence o primeiro repetindo o mesmo jogo.

Tha'lei absorveu as palavras. Na escuridão, sem rosto para ler, restava apenas a voz e o que vibrava por baixo dela — e por baixo da voz de Vorn havia algo que ela já percebera em fragmentos: a arquitetura de alguém que fora desmontado e se remontava, peça por peça, sem manual.

Ela estendeu a mão na escuridão.

Encontrou a dele.

O calor veio — não da marca, mas do contato. Dois corpos que a água e o tempo e a violência haviam partido, e que agora encostavam fragmentos nos fragmentos do outro — não para se consertar, mas para confirmar que o estrago existia, que era real, que outra pessoa podia senti-lo.

Ficaram assim.

Não havia nada romântico no gesto. Havia algo mais raro: dois seres quebrados admitindo, pelo toque, que as rachaduras eram parte do que eram.

— Se Shar'ek vier — disse Tha'lei —, não repetimos o jogo dele. Inventamos outro.

Vorn apertou a mão dela.

— Possível.

Na escuridão de Null'kai, a palavra soou quase como esperança.

* * *

A primeira luz retornou devagar — bioluminescência residual nas paredes do Coração, tênue, esverdeada, insuficiente para iluminar qualquer coisa de verdade. Suficiente para criar sombras.

Tha'lei estava na câmara de observação quando o alarme soou.

Não um alarme real — o Coração não possuía sistemas para isso. Um grito de sentinela, repetido por outro, ecoando pelos corredores de coral morto com urgência que dispensava tradução.

— Perímetro norte — disse Vorn, já em movimento. — Vamos.

Chegaram ao túnel de acesso norte onde três sentinelas formavam barreira — nadadeiras abertas, improvisações de armas nas mãos, corpos tensos. Keth'ra já estava ali, imóvel, avaliando.

Além das sentinelas, na água escura do perímetro, algo brilhava.

Não era keth. Não era bioluminescência natural. Era uma luz singular — translúcida, pulsante, como se alguém tivesse capturado um fragmento de aurora e o carregasse dentro do próprio corpo.

A figura se aproximou.

Tha'lei nunca vira nada parecido. A forma era vagamente humanoide — se humanoide fosse palavra que existisse em Thalassara — mas translúcida, como se feita de água mais densa que a água ao redor. Membros longos, finos, articulações que pareciam cristal líquido. E a luz: vinha de dentro, não de fora. Brilho próprio, independente, como estrela solitária no fundo do oceano.

Lumina'eth, pensou Tha'lei. Mas diferente. Os Lumina'eth que conhecia — raros visitantes nas margens de Null'kai — eram coletivos. Viajavam em redes, conectados por filamentos de luz, compartilhando consciência como quem compartilha sangue. Esta figura estava sozinha. Uma Lumina'eth sem rede. Um nó sem teia.

Algo naquilo era errado. E algo era fascinante.

— Não ataquem — disse Keth'ra. A ordem era desnecessária; as sentinelas estavam paralisadas. — Identifique-se.

A figura parou. A luz em seu interior pulsou — ritmo rápido, analítico, como se processasse a situação.

— Ilumeth. — A voz era clara, precisa, com uma qualidade cristalina que lembrava keth vibrando em tubo de vidro. — Lumina'eth. Autônoma.

— Lumina'eth não são autônomos — disse Keth'ra. — São coletivos.

— Correto. — Ilumeth inclinou a cabeça — gesto que parecia aprendido, não instintivo. — Eu sou exceção. Anomalia, se preferir. Separada da rede. — Uma pausa. — Ou separada pela rede. A distinção é... relevante, e ao mesmo tempo, não.

Keth'ra não se moveu.

— O que você quer aqui?

— Troca. — Ilumeth avançou um passo. As sentinelas se ajustaram. Ela não demonstrou reação ao movimento delas. Nenhuma. — Eu vendo informação. Vocês precisam de informação. A equação parece direta.

Vorn observava com olhos que Tha'lei reconhecia — os olhos do caçador analisando presa. Não hostilidade, mas cálculo. Tamanho. Velocidade. Capacidade de ameaça.

— Informação sobre o quê? — perguntou Tha'lei.

Ilumeth virou-se para ela. A luz interna mudou — pulso mais lento, mais focado, como se toda a atenção daquele ser se concentrasse num ponto.

— Sobre muitas coisas. — A voz era curiosa, analítica, como se cada frase fosse experimento. — Sobre movimentações do regime. Sobre rotas de suprimento. Sobre Shar'kai em missões especiais.

As últimas palavras ficaram suspensas.

— Como você sabe sobre Shar'kai em missões especiais? — A pergunta de Keth'ra cortou o ar.

— Porque informação é o que sou — respondeu Ilumeth. Sem arrogância. Sem humildade. Constatação. — Lumina'eth coletivos processam dados em rede. Eu processo sozinha. Isso me torna mais lenta, mas também mais... seletiva. Escolho o que absorvo. Escolho para quem vendo.

— E por que nós? — Keth'ra permanecia imóvel. Basalto com olhos.

— Porque vocês podem pagar. — Ilumeth observou a câmara ao redor com seus olhos sem pupila — superfícies lisas de luz que captavam tudo sem parecer focar em nada. — E porque o que tenho a vender... interessa particularmente a alguém aqui.

O olhar cristalino encontrou Tha'lei.

Keth'ra se interpôs.

— Ninguém fala com ninguém sem minha autorização. — A voz era pedra polida. — Você fica aqui, vigiada, até decidirmos o que fazer com você. Vel'ra, Onu'rei — escoltem.

Ilumeth não resistiu. Não protestou. Observou tudo com a curiosidade desprovida de medo de quem ainda não viveu o suficiente para aprender quando ter medo — e havia algo de jovem nessa ausência, algo que lembrava a Tha'lei que aquela criatura luminosa podia ter não mais que doze ciclos.

— Interessante — murmurou, enquanto era conduzida para uma câmara lateral. — Vocês se organizam pela dor. Nunca tinha visto de perto. Apenas em dados.

As sentinelas trocaram olhares desconfortáveis.

Keth'ra fitou Tha'lei.

— Não confio nela.

— Eu sei.

— Lumina'eth não se separam de redes. Não existem sozinhas. É como Finn'ra que não nadam ou Kelu'nu sem carapaça. — Os olhos de Keth'ra eram cálculo puro. — Ela é fabricada. Ou mentirosa. Ou as duas coisas.

Vorn, ao lado, falou sem ser perguntado.

— Não mentiu. Não detectei sinais de engano.

— Você detecta sinais de engano em Shar'nu e Kelu'nu — disse Keth'ra. — Lumina'eth são outra fisiologia. Outro registro.

Vorn assentiu. Ponto aceito.

— Mantenho a vigilância — disse Keth'ra. — E ninguém fala com ela sem mim presente.

Virou-se e saiu.

Tha'lei ficou. Algo na base do estômago se contraía — não por Vorn, não por perigo. Por algo que não sabia nomear. Algo no olhar de Ilumeth, naquela luz interna que brilhava sozinha, sem rede, sem coletivo, sem nada a que pertencer.

Ela olhou para mim. Especificamente para mim.

Por quê?

* * *

A resposta veio três horas depois.

Tha'lei não procurou Ilumeth. Ilumeth a encontrou — ou, mais precisamente, fez-se encontrar. Tha'lei passava pelo corredor lateral a caminho da câmara de Thal'ven quando a voz cristalina a deteve.

— Tha'lei.

Vel'ra, de guarda junto à câmara onde Ilumeth estava confinada, ergueu a mão. Tha'lei acenou para ele — está tudo bem — e se aproximou da abertura.

Ilumeth estava sentada no centro do espaço, brilhando suavemente. A luz fazia sombras estranhas nas paredes de coral morto — sombras que se moviam mesmo quando ela ficava imóvel, como se a luminosidade tivesse vida própria.

— Você quer me dizer algo — disse Tha'lei. Não era pergunta.

Ilumeth a estudou. Tha'lei sentiu o peso daquele olhar — não hostil, não amigável. Científico. Como se Ilumeth a desmontasse em componentes para entender como funcionava.

— Eu vendo informação — disse Ilumeth. — Mas há informação que não se vende em público. Há informação que é pessoal demais para uma sala cheia.

— Keth'ra disse que ninguém fala com você sem ela presente. — Tha'lei sabia que já estava violando a ordem. Sabia que deveria se afastar, buscar Keth'ra, seguir o protocolo. E sabia que não ia fazer nada disso.

— Sim. — Ilumeth inclinou a cabeça. — Isso é sensato. Keth'ra é sensata. Desconfiada de maneiras produtivas. — Uma pausa. — Mas esta informação é sua, Tha'lei. Só sua. E você decide se quer ouvir.

A palma da mão coçou. Tha'lei ignorou.

— Que informação?

Ilumeth se levantou. A luz interna mudou — mais quente, mais concentrada, como se as próximas palavras exigissem energia extra para serem ditas.

— Eu vendo informação. Tenho algo sobre Kelu'tha. — Os olhos sem pupila encontraram os de Tha'lei. — Sua mãe. Interessada?

A água de Null'kai perdeu peso. As correntes desapareceram, o som se apagou, e o corpo de Tha'lei esqueceu que precisava respirar. Restou apenas a palavra — mãe — e tudo que ela continha.

Kelu'tha.

Ninguém pronunciava aquele nome. Ninguém sabia. Kel'om nunca falara sobre ela — apenas dissera, uma vez, quando Tha'lei era pequena demais para entender: Sua mãe fez coisas que eu não posso explicar. Um dia, talvez, as correntes tragam a verdade até você.

E nunca mais tocara no assunto.

— Como... — A voz de Tha'lei saiu estrangulada. — Como você sabe esse nome?

— Porque informação é o que sou — repetiu Ilumeth, com a mesma calma de antes. — Lumina'eth processam dados. Eu fui construída para processar dados específicos. A rede me expulsou, mas os dados ficaram.

— Construída.

— Sim. — Sem constrangimento. — Pelo regime. Como infiltradora da rede Lumina'eth. Separada depois. Mas isso é minha história, e minha história tem preço diferente. — Ilumeth se aproximou da abertura. — A história de Kelu'tha... essa eu ofereço a você. Mas o preço é uma viagem.

Tha'lei não conseguia pensar. A rachadura em sua carapaça doía. O nome de sua mãe — aquele nome que era corrente sem saída em sua própria história — girava na água entre ela e a Lumina'eth como algo sólido.

— Que viagem?

— Lumina'mar. — Ilumeth disse o nome como quem descreve equação. — O ponto de convergência da rede Lumina'eth. É onde os dados estão armazenados. É onde a história de sua mãe existe por inteiro, preservada em luz. — Pausa. — Comigo.

— Por que comigo?

Ilumeth a observou com aquela curiosidade desprovida de emoção que era seu modo de existir.

— Porque preciso de alguém com conexão de keth forte o bastante para acessar os registros. A marca em sua mão... — os olhos cristalinos se fixaram na palma de Tha'lei — ...é anomalia suficiente. E porque preciso de motivo para voltar a um lugar de onde fui expulsa.

— Motivo.

— Proteger alguém é motivo. — Ilumeth recuou. — Pense nisso. Não decida agora. — Virou-se, luz interna diminuindo. — Mas, Tha'lei... não demore. Informação tem prazo. E o que sei sobre Kelu'tha... outras pessoas também estão procurando.

Tha'lei ficou parada na abertura da câmara. Vel'ra a observava de seu posto, sem expressão.

Kelu'tha.

Minha mãe.

O nome que Kel'om nunca pronunciou.

A marca pulsava em sua mão — ritmada, insistente, como se tentasse dizer algo que Tha'lei ainda não sabia ouvir. Na escuridão de Null'kai, na base de coral morto, rodeada de pessoas que compartilhavam cicatrizes como quem compartilha pão, Tha'lei segurou o próprio pulso e sentiu o calor da marca contra os dedos.

Histórias na escuridão.

Todo mundo tem uma.

E a minha... a minha ainda não acabou.

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Na escuridão, histórias e cicatrizes são compartilhadas. Uma luz inesperada surge.
Deixe sua marca nas profundezas de Thalassara.

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