Capítulo Treze

A Vendedora de Segredos

Keth'ra não levantou os olhos quando Tha'lei entrou na câmara de comando. Estava curvada sobre os mapas de corrente, os dedos traçando rotas que já não existiam — caminhos bloqueados pelo confinamento, veias mortas num corpo que o regime estrangulava lentamente.

— Não — disse Keth'ra, antes que Tha'lei abrisse a boca.

— Você nem sabe o que vou pedir.

— Sei exatamente. — Keth'ra finalmente olhou. As cicatrizes no pescoço brilhavam fracas na penumbra do Coração, como constelações de dor antiga. — A Lumina'eth te contou alguma coisa bonita sobre sua mãe e agora você quer sair durante o confinamento para perseguir fantasmas.

Tha'lei engoliu a resposta fácil. A resposta fácil seria mentir. Dizer que era só pela informação, só pelo tático, só pelo que Ilumeth sabia sobre movimentações do regime.

Mas Keth'ra merecia mais que isso.

— Ilumeth tem dados sobre patrulhas além da Null'kai. Rotas que mudaram depois da sabotagem. — Tha'lei manteve a voz firme. — E sim. Ela sabe algo sobre Kelu'tha. Sobre minha mãe.

— Sua mãe está morta há vinte ciclos.

A frase afundou sem eco.

— Talvez — disse Tha'lei. — Talvez não. É isso que preciso descobrir.

Keth'ra se levantou. Tinha a altura de quem carregou peso demais por tempo demais — os ombros curvados, a postura de quem aprendeu que ficar ereto atrai golpes. Cruzou os braços. As marcas de tortura no antebraço esquerdo formavam um mapa que ninguém queria ler.

Shar'ek está vindo. Doze Shar'kai treinados. E você quer sair pela porta da frente com uma criatura que o regime fabricou como infiltradora.

— Ilumeth escolheu desertar.

— Isso é o que ela diz.

— É o que eu acredito.

Tha'lei sentiu a pressão nos ouvidos, no peito, atrás dos olhos. Sabia o que estava fazendo. Já havia desobedecido ao falar com Ilumeth sozinha. Agora escalava — de infração para ruptura.

Keth'ra deve ter visto isso no rosto dela, porque sua expressão mudou. Não amoleceu. Endureceu de outro jeito — o jeito de quem aceita uma perda antes que ela aconteça.

— Cinco dias. — A voz de Keth'ra era lâmina. — Se não voltar em cinco dias, não existe mais lugar para você aqui.

Tha'lei assentiu. Não havia o que agradecer.

Encontrou Vorn no corredor de saída, encostado na parede como se estivesse ali por acaso. Não estava. Vorn nunca fazia nada por acaso.

Ele não disse nada por um momento longo. Os olhos de ex-Shar'kai mediam distâncias, calculavam riscos, contavam saídas.

— Discordo — disse ele, simplesmente.

— Eu sei.

— Mas não vou te impedir.

Tha'lei olhou para a própria mão. A marca dourada estava quieta, uma linha fina que cortava a palma como cicatriz de nascença. A marca correspondente na mão de Vorn estava escondida sob a luva que ele sempre usava.

A primeira separação de verdade desde que nos aliamos.

— Cinco dias — repetiu ela, como se dizer em voz alta tornasse o prazo mais real.

Vorn desencostou da parede. Por um instante, pareceu que ia dizer algo mais — algo sobre cuidado, sobre voltar inteira, sobre as coisas que pessoas dizem quando não sabem se vão se ver de novo. Mas ele era Vorn. Apenas inclinou a cabeça e voltou para dentro.

Tha'lei nadou para a escuridão da Null'kai, onde Ilumeth esperava.

~ ~ ~

A Null'kai não tinha keth. Essa era a definição simples. A realidade era pior.

Nadar pela Null'kai era como respirar dentro de um cadáver. A água ali era água da mesma forma que cinza era fogo — o resíduo, a ausência, o depois. Cada braçada custava mais do que devia. Cada músculo reclamava a falta daquilo que não sabia nomear.

Ilumeth não parecia afetada.

— Seu ritmo cardíaco aumentou treze por cento desde que saímos — observou, nadando ao lado de Tha'lei com movimentos que pareciam desnecessariamente eficientes. Seu corpo translúcido emitia um brilho tênue, a única luz naquele deserto líquido. — Estresse fisiológico pela ausência de keth ou resposta emocional à separação do grupo?

— As duas coisas.

— Fascinante. Nos Lumina'eth, separação do coletivo gera degradação cognitiva em aproximadamente seis horas. Eu fui expulsa há quatro ciclos. Pela lógica da rede, eu já deveria ser incoerente.

Tha'lei olhou para ela. Ilumeth tinha o rosto de quem nunca precisou aprender expressões faciais — superfícies lisas onde deviam estar as pupilas, pele que era mais luz contida do que carne. Doze ciclos. Uma criança pelo corpo. Algo muito mais velho pelo processamento.

— Você não parece incoerente.

— Obrigada. Embora eu não tenha parâmetro confiável para avaliar minha própria coerência. Esse é precisamente o problema.

Nadaram em silêncio por um tempo. A escuridão da Null'kai era absoluta fora do raio de luz de Ilumeth. Tha'lei sentia o vazio como pressão inversa — não o peso da água acima, mas a sucção de algo que faltava embaixo.

— Por que você se importa com um nome? — perguntou Ilumeth, quebrando o silêncio com a sutileza de quem quebra um osso. — Kelu'tha. Você não possui memórias compartilhadas com ela. Nenhum vínculo experiencial. Apenas uma designação genética e uma ausência.

— Não é só um nome.

— Objetivamente, é. Uma combinação de sons que identifica uma entidade biológica que compartilhou material genético com você. Tudo além disso é construção.

Tha'lei sentiu uma irritação quente subir pelo peito. Era fácil ficar irritada com Ilumeth. Era como ficar irritada com uma corrente — a coisa simplesmente ia para onde ia, sem malícia.

— Construção importa — disse Tha'lei. — Tudo que a gente é foi construído por alguma coisa.

Ilumeth ficou quieta por três braçadas. Depois:

— Essa é uma afirmação que preciso processar com mais calma. — Uma pausa. — Posso fazer outra pergunta invasiva?

— Você vai fazer de qualquer jeito.

— Correto. Vorn. A marca na mão dele corresponde à sua. Observei que vocês mantêm proximidade física abaixo da média estatística para aliados em combate, mas acima da média para relações de vínculo afetivo. Isso é romântico, estratégico ou uma terceira variável que não identifiquei?

Tha'lei quase riu. Quase.

— Não sei — admitiu. E era verdade.

— Interessante. Incerteza emocional genuína. Eu esperava evasão ou negação. Sua honestidade é... — Ilumeth pareceu buscar a palavra. — Inconveniente. Dificulta a categorização.

Continuaram nadando. Horas se arrastaram na escuridão sem referência. Tha'lei perdeu a noção de quanto tempo havia passado quando sentiu a primeira mudança.

Foi sutil. Um calor na pele. Um formigamento nos dedos. Como se o sangue estivesse lembrando de algo que havia esquecido.

Keth.

Estavam saindo da Null'kai.

A transição foi como emergir de um túmulo. A água ganhou textura, temperatura, vida. Tha'lei sentiu o keth entrar pelos poros como chuva depois de seca — cada célula absorvendo, expandindo, cantando. Seus músculos se encheram de uma força que tinha esquecido que existia.

A marca na mão pulsou uma vez. Breve. Dourada. Como um coração batendo depois de parar.

— Sua marca reagiu — disse Ilumeth, o olhar cristalino fixo na mão de Tha'lei. — Emissão luminosa de 0,3 segundos. O keth externo está interagindo com o keth interno da marca. Posso tocar?

— Não.

— Aceitável.

Nadaram para águas cada vez mais vivas, e Tha'lei tentou não pensar em como era bom sentir o mundo de novo. Tentou não pensar em como o Coração, escondido na morte da Null'kai, era também uma espécie de tumba para os vivos.

Vorn ocupou o espaço que sobrou.

~ ~ ~

Lumina'mar não era um lugar. Era uma alucinação.

Tha'lei parou de nadar quando viu. A boca se abriu. Não conseguiu fechá-la.

A água à frente brilhava. Não como bioluminescência, não como reflexo, não como fogo — brilhava como pensamento tornando-se visível. Filamentos de luz cruzavam o espaço em todas as direções, fios dourados e prateados e azuis que conectavam milhares de formas translúcidas suspensas na coluna d'água. Lumina'eth. Centenas. Milhares. Cada um um nó numa rede inconcebível, cada um pulsando no ritmo de uma consciência compartilhada.

Era uma aurora dentro da água.

Os filamentos transmitiam informação — Tha'lei sentia isso como pressão nos ossos, como vibração nos dentes. Dados, memórias, pensamentos, cálculos, tudo fluindo numa corrente que fazia o keth parecer grosseiro. A rede era um organismo. Cada Lumina'eth, uma célula.

— Bonito — sussurrou Tha'lei.

— Para você, talvez — disse Ilumeth. E pela primeira vez, sua voz tinha algo que não era análise. Algo que fez seu brilho oscilar e os filamentos ao redor recuarem. — Para mim é o som de uma porta que foi trancada por dentro.

Os filamentos mais próximos se voltaram para elas. Não fisicamente — não tinham rosto, não tinham olhos. Mas a rede notou. Tha'lei sentiu a atenção como mudança de pressão.

Uma forma se destacou do coletivo. Maior que Ilumeth, mais brilhante, com filamentos que saíam do corpo como raízes de uma árvore invertida. Quando falou, a voz veio de todos os lugares — da água, do keth, do próprio pensamento de Tha'lei.

— Anomalia detectada. — A voz era mil vozes sincronizadas. — Designação: Ilumeth. Status: expulsa. Classificação: erro de cálculo.

Ilumeth encolheu. Tha'lei nunca a tinha visto encolher.

Lum'ora — disse Ilumeth, e a palavra soava como o nome de uma doença.

— Você retorna. — A entidade coletiva flutuou mais perto. Os filamentos se estenderam na direção de Ilumeth, e Tha'lei viu a Lumina'eth recuar como se os fios fossem lâminas. — A rede oferece duas resoluções. Reabsorção com supressão de anomalia. Ou eliminação.

— Eu trouxe uma proposta — disse Ilumeth, a voz tremendo nas bordas.

— A rede não negocia com erros.

Tha'lei agiu antes de pensar. Deu um passo à frente — uma braçada, na verdade, mas o gesto carregava o peso de um passo — e colocou-se entre Ilumeth e os filamentos que avançavam.

— Ela está comigo.

A rede parou. Mil formas luminosas pulsaram ao mesmo tempo, como um piscar coletivo. Os filamentos ao redor de Tha'lei hesitaram, e ela sentiu algo estranho — uma estática, um zumbido, como se a rede tentasse lê-la e encontrasse interferência.

A marca na mão brilhou. Segunda vez. Dourada, forte, quente. O keth dentro de Tha'lei respondeu ao keth na rede e criou algo que nenhuma das partes esperava — ruído. Ruído puro. A rede não conseguia processar a marca.

Lum'ora recuou meio metro.

— Interferência não catalogada — disse a voz coletiva, e agora havia algo além da frieza mecânica. Curiosidade, talvez. Ou cautela. — A portadora de keth anômalo. Registros indicam: marca de origem desconhecida.

— Viemos buscar informação — disse Tha'lei, mantendo a mão erguida. A marca pulsava no ritmo de seu coração. — Depois vamos embora.

O silêncio da rede durou o que pareceram ciclos. Mil mentes calculando ao mesmo tempo. Tha'lei sentiu a resposta antes de ouvi-la — uma mudança na pressão, um relaxamento nos filamentos.

— Período concedido: limitado. A anomalia permanece sob observação. — Lum'ora se afastou, mas os filamentos ficaram. Vigiando.

Tha'lei deixou o ar escapar pelos dentes. Ao lado dela, Ilumeth tremia. Não de frio. Lumina'eth não sentiam frio.

— Obrigada — disse Ilumeth, e a palavra saiu como se nunca tivesse sido usada antes.

~ ~ ~

Encontraram um recesso na borda de Lumina'mar — uma concavidade na rocha onde os filamentos da rede não alcançavam completamente. Uma zona de sombra relativa num mundo feito de luz.

Ilumeth flutuava com os braços ao redor dos joelhos. Seu brilho havia diminuído. Parecia menor.

— Você quer saber — disse Ilumeth, sem olhar para Tha'lei. — Sobre como foi.

— Só se você quiser contar.

— Querer é uma categoria que ainda estou avaliando. — Uma pausa. O brilho oscilou. — Vou contar porque os dados podem ser úteis para seu processamento emocional.

Tha'lei esperou.

— Você já sabe o que eu sou — começou Ilumeth. Não havia dramaticidade na voz. Havia algo pior: precisão clínica aplicada à própria destruição. — Mas não sabe como foi por dentro. Entrei na rede. Fui aceita. Conectei-me. — A luz nos olhos ficou distante. — Você sabe o que é um coletivo? Não é como estar com outras pessoas. É como ser outras pessoas. Cada pensamento compartilhado. Cada emoção, um sinal que propaga por todos os nós ao mesmo tempo. Eu senti pertencimento pela primeira vez. E acreditei que era real.

A luz dela pulsou uma vez, fraca.

— Então a rede encontrou as costuras. As memórias implantadas tinham padrões que memórias orgânicas não têm. Regularidade demais. Coerência demais. A vida real é bagunçada. A minha era... limpa. — Ilumeth fechou os olhos. — A expulsão foi instantânea. Não houve julgamento. Não houve conversa. Num momento eu era parte de tudo, e no seguinte eu era nada. Como se alguém arrancasse o oceano de dentro de você e deixasse só o sal.

Tha'lei sentiu o peso daquilo no próprio corpo. Conhecia a textura da perda súbita. Kel'om morrendo. O bloom subindo. O mundo ficando menor em um segundo.

— E o regime? — perguntou, embora soubesse.

— Me descartou. Projeto fracassado. Recurso desperdiçado. Nem se deram ao trabalho de me eliminar. — Uma sombra de algo que poderia ser riso cruzou o rosto de Ilumeth. — Sabe o que é pior do que ser destruída? Ser irrelevante.

O silêncio se estendeu. Os filamentos da rede pulsavam ao longe, indiferentes.

— Existe uma coisa que eu não sei calcular — disse Ilumeth, e agora sua voz tinha rachaduras. Pequenas. Como fissuras em vidro antes de quebrar. — As emoções que sinto. A solidão. A curiosidade. O medo de agora. São minhas? Ou foram programadas junto com o resto? Quando sinto tristeza, é tristeza real ou é o regime ainda me operando por dentro, como um parasita nos circuitos?

Tha'lei estendeu a mão. Não para tocar a marca, não para fazer nada tático ou estratégico. Apenas estendeu. Ilumeth olhou para ela com aqueles olhos sem fundo.

— Kel'om me criou em segredo — disse Tha'lei. — Cada coisa que aprendi, ele escolheu ensinar. Cada valor que tenho, ele plantou. Minha raiva contra o regime, minha vontade de lutar, minha incapacidade de abandonar pessoas — tudo foi construído. — Ela manteve a mão estendida. — Isso não faz de mim menos real.

Ilumeth olhou para a mão por muito tempo. Depois, devagar, como quem testa a temperatura de algo que pode queimar, tocou os dedos de Tha'lei com os seus. O toque era estranho — morno, leve, como segurar luz sólida.

— Os dados são insuficientes para uma conclusão — disse Ilumeth, mas não soltou.

~ ~ ~

Lum'ora permitiu o acesso aos registros com a relutância de quem abre uma ferida para inspeção.

Os filamentos da rede se reorganizaram ao redor de Ilumeth, e Tha'lei viu a Lumina'eth fechar os olhos e conectar-se novamente — não completamente, não como membro, mas como visitante num idioma que ainda sabia falar. Os filamentos brilharam mais forte. Informação fluiu.

Tha'lei esperou com as mãos fechadas.

Os dados emergiram como fragmentos de luz no espaço entre elas — imagens incompletas, registros parciais, pedaços de uma história que ninguém se preocupou em contar inteira.

Kelu'tha.

A imagem era borrada, mais sugestão que retrato. Uma Kelu'nu de carapaça escura. Mãos de pesquisadora — dedos longos, calejados de instrumentos. Olhos que Tha'lei não conseguiu ver com clareza, mas que imaginou iguais aos seus.

— Kelu'tha — disse Ilumeth, os olhos fechados, a voz distante de quem lê em outra língua. — Pesquisadora de keth. Não uma dissidente comum. Uma cientista. Especialização: fluxos anômalos de energia vital. Nível de acesso: alto. Período de atividade documentada: trinta e cinco a vinte ciclos atrás.

Pesquisadora. Não guerrilheira. Não fugitiva. Cientista.

— Os registros indicam — continuou Ilumeth — que Kelu'tha falsificou documentos oficiais relacionados a você. Natureza da falsificação: classificada. Dados indisponíveis nesta camada da rede.

— Falsificou o quê?

— Indisponível.

A frustração ardeu na garganta. Era como beber água salgada — só aumentava a sede.

— Data de falecimento — disse Ilumeth, e sua voz mudou. Ficou mais baixa. Mais cuidadosa. Como se as palavras fossem frágeis. — Kelu'tha morreu há aproximadamente vinte ciclos. Causa: interceptação durante transmissão de mensagem codificada. O regime a localizou enquanto tentava enviar dados através de canais não autorizados.

Morta.

A palavra afundou devagar, como corpo sem vida descendo na coluna d'água.

Vinte ciclos. Tha'lei tinha três ciclos quando aconteceu. Kel'om já cuidava dela. Sua mãe morreu tentando mandar uma mensagem, e ela estava em algum lugar no escuro, aprendendo a nadar.

— Existe um registro adicional — disse Ilumeth. — A mensagem que Kelu'tha tentou enviar não foi completamente destruída. Um fragmento se preservou. Cristalizou-se em keth sólido. Localização atual: Kreth'abys.

— As Cavernas de Tinta.

— Arquivo profundo. O fragmento cristalizado permanece inativo. Os registros da rede indicam uma particularidade: a mensagem foi codificada com assinatura biológica. Requer... — Ilumeth abriu os olhos. Olhou para Tha'lei. — Requer uma voz específica para ativação.

O entendimento a atravessou, gélido.

— A minha voz.

— Provável. Os parâmetros de ativação são compatíveis com descendência genética direta.

Tha'lei ficou parada na água. Ao redor, Lumina'mar brilhava com sua beleza insuportável — milhares de consciências conectadas, compartilhando tudo, sem segredos, sem solidão. E ali estava ela, segurando a descoberta de que sua mãe estava morta há vinte ciclos e tinha deixado uma mensagem que só ela podia ouvir.

Ilumeth se desconectou dos filamentos. Voltou para si mesma com um estremecimento visível.

— Lamento — disse. — Esperava que os dados fossem diferentes.

— Não — disse Tha'lei. A voz saiu mais firme do que esperava. — Esperava exatamente isso. Acho que sempre soube.

Mas ela deixou algo. Não me deixou sozinha. Deixou palavras esperando pela minha voz num lugar que preciso encontrar.

Era o bastante. Tinha que ser.

~ ~ ~

Saíram de Lumina'mar enquanto os filamentos da rede ainda as observavam. Lum'ora não se despediu. Coletivos não se despedem — simplesmente param de prestar atenção.

Ilumeth nadava diferente agora. Mais devagar. Como se cada braçada fosse uma pergunta.

— A rede me ofereceu reabsorção — disse, depois de um longo silêncio. — Enquanto acessava os registros. Senti o convite nos filamentos. Voltar. Ser parte de novo.

Tha'lei olhou para ela.

— E?

— Recusei. — Ilumeth franziu algo que não era exatamente um cenho. — Não sei por que recusei. A reabsorção eliminaria a solidão, a incerteza, o medo constante de que nada do que sinto é genuíno. Seria eficiente. Lógico.

— Mas você disse não.

— Disse não. — Ilumeth pareceu perturbada pela própria resposta. — Talvez porque a reabsorção suprimiria a anomalia. Tudo que me faz diferente seria corrigido. Eu deixaria de existir como Ilumeth e voltaria a ser... dado. Ruído normalizado.

— Você não quer deixar de existir.

— Isso é o que parece. Embora eu não saiba se esse desejo é meu ou programado.

Nadaram para águas mais escuras. A luz de Lumina'mar diminuiu atrás delas até virar memória. Tha'lei sentia o peso de tudo que havia aprendido como pressão nas costas — Kreth'abys, a mensagem, a morte de uma mulher que a amou o suficiente para codificar palavras no keth à espera de uma voz que talvez nunca viesse.

Estavam na transição entre águas vivas e a borda da Null'kai quando Ilumeth parou de nadar.

— Tha'lei.

O tom fez Tha'lei congelar.

— O que foi?

Ilumeth tinha os olhos fechados. Seu corpo brilhava em pulsos irregulares — estava processando algo, captando sinais que Tha'lei não podia perceber.

— Movimento. — A voz de Ilumeth era afiada agora, toda a incerteza filosófica substituída por cálculo puro. — Formação Shar'kai. Doze unidades. Velocidade compatível com rastreamento ativo. Direção: Null'kai. Trajetória convergente com a localização aproximada do Coração.

Shar'ek.

O nome trovejou no pensamento de Tha'lei como alarme.

— Quanto tempo?

— Na velocidade atual, alcançam a zona de entrada da Null'kai em menos de dois dias.

Keth'ra me deu cinco dias. Já se passaram três.

— Precisamos voltar — disse Tha'lei.

— Concordo. A velocidade necessária vai exigir esforço máximo. — Ilumeth abriu os olhos. — Tha'lei. Se os Shar'kai encontrarem o Coração antes de chegarmos...

— Eu sei.

— Posso fazer uma última observação antes de nadarmos?

— Rápido.

Ilumeth flutuou diante dela. Doze ciclos de rosto. Quatro ciclos de solidão. Uma existência inteira construída por mãos alheias.

— Fui feita para trair — disse. — Escolhi não trair. Pelos seus parâmetros — isso me torna real?

A pergunta ficou na água entre elas como organismo vivo. Tha'lei olhou para Ilumeth — para a luz que insistia em brilhar mesmo depois de ser arrancada do coletivo, para os olhos sem pupilas que procuravam verdades em dados que nunca bastavam, para as mãos que tremiam não de frio, mas de existir.

— O regime me moldou tanto quanto moldou você — disse Tha'lei. — Pela ausência. Pela perda. Cada pedaço do que sou nasceu de alguma coisa que não escolhi.

A marca na mão pulsou uma última vez. Breve. Quente. Depois apagou.

— Então vamos — disse Ilumeth, e nadou para a escuridão.

Tha'lei a seguiu. O retorno seria mais rápido. Tinha que ser. Atrás delas, Lumina'mar brilhava como sonho de quem não dorme. À frente, a Null'kai esperava com sua fome quieta. E em algum lugar entre as duas, doze Shar'kai avançavam na direção de tudo que Tha'lei tinha jurado proteger.

Ela nadou mais forte.

Duas coisas fabricadas construindo algo real.

Vel'thani kesh — Duas cascas, uma verdade

Duas coisas fabricadas construindo algo real.

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