A praça estava cheia.
Tha'lei observava de uma fenda entre estruturas de coral morto, seu corpo pressionado contra a rocha fria, a carapaça raspando na parede a cada respiração que tentava controlar. Longe o suficiente para não ser detectada. Perto o suficiente para ver o rosto dele.
Kel'om.
O nome pulsava em sua mente como o bater de um coração que não era o seu. O Kelu'nu que a criara. Que ensinara os cantos quando era proibido cantar. Que passara décadas preservando o que o regime queria apagado.
Agora estava no centro da praça, cercado por quatro Shar'nu que pareciam maiores do que deveriam ser — corpos aerodinâmicos feitos para violência, pele áspera que capturava a luz bioluminescente e a devolvia em reflexos metálicos. Suas mandíbulas se abriam e fechavam em ritmo próprio, dentes renovando-se eternamente, como se a fome fosse condição permanente.
A carapaça de Kel'om estava rachada em três lugares. Sangue coagulado formava padrões escuros sobre os desenhos que contavam a história de sua família — gerações de memória agora manchadas pelo que o regime chamava de justiça.
Tha'lei engoliu algo que poderia ser bile ou poderia ser medo. Talvez fossem a mesma coisa.
A multidão se estendia em todas as direções, corpos de todas as espécies amontoados nos espaços designados. Finn'ra em cardumes nervosos, escamas refletindo tons de ansiedade. Alguns Kelu'nu isolados, carapaças contraídas como se pudessem desaparecer dentro de si mesmos. Até alguns Lumina'eth flutuavam nas bordas, seus corpos translúcidos pulsando com cores que Tha'lei não sabia nomear — curiosidade? Indiferença? Com eles, era impossível saber.
Ninguém faltava às execuções. Não porque quisessem assistir, mas porque ausência era notada, registrada, punida.
Um Vora'makai emergiu da entrada principal de Vo'kethara Central. Menor que os do conselho — um funcionário, não um governante — mas ainda assim imenso o suficiente para projetar sombra sobre metade da praça. Seus tentáculos se moviam independentemente, alguns segurando documentos, outros gesticulando para os guardas, dois ou três simplesmente existindo, como se tivessem esquecido que faziam parte de um corpo maior.
— O prisioneiro Kel'om — a voz ressoou com harmônicos que faziam os ossos de Tha'lei vibrarem — foi considerado culpado de subversão, preservação de conhecimento proibido e migração não autorizada.
Migração não autorizada.
Tha'lei quase riu. Quase. O som morreu em sua garganta antes de nascer, substituído por algo mais afiado.
O crime real não estava na lista. Nunca estava.
O crime real era ensinar. Lembrar. Recusar esquecer.
O crime real era cantar os Cantos dos Caminhos para uma jovem Kelu'nu órfã, noite após noite, até que ela conhecesse cada rota migratória que seu povo usara antes do regime. Até que ela soubesse onde ficavam as correntes de keth que fluíam livres, longe das Vo'kethara e seu controle sufocante. Até que ela carregasse na memória um mapa que nenhum guarda poderia confiscar.
O crime real era criar esperança num lugar em que esperança era contrabando.
— A sentença — continuou o Vora'makai, e Tha'lei notou que ele não olhava para Kel'om, não olhava para a multidão, olhava para algum ponto acima de tudo, como se a execução fosse apenas burocracia a ser completada — é dissolução.
A palavra caiu sobre a praça como pedra em água parada.
Dissolução.
Não apenas morte. Desmembramento público. O corpo despedaçado até que o keth armazenado se liberasse em bloom, subindo em espirais bioluminescentes que os guardas coletariam. Até a energia da morte era propriedade do regime.
Os quatro Shar'nu se ajustaram. Um deles — o maior, com lâminas ósseas retráteis já expostas — avançou. Seus olhos negros não piscavam. Talvez não pudessem.
Kel'om ergueu a cabeça.
Tha'lei prendeu a respiração.
Os olhos dele — âmbar desbotado pelo tempo, mas ainda vivos, ainda presentes — varreram a multidão. Passaram por rostos conhecidos e desconhecidos, por corpos tensos e corpos resignados, por tudo que era Thalassara comprimido naquela praça de pedra e medo.
E então, por um momento impossível, encontraram os dela.
Pela fenda. Pela distância. Por tudo que deveria torná-la invisível.
Kel'om a viu.
E sorriu.
Não o sorriso largo de quem encontra alegria. O sorriso pequeno e triste de quem se despede, de quem confia, de quem passou adiante tudo que tinha para passar e agora está pronto para o que vem depois.
Tha'lei sentiu lágrimas queimarem seus olhos. Não deixou que caíssem. Não ainda.
E então Kel'om abriu a boca.
E começou a cantar.
Os Cantos dos Caminhos eram proibidos há gerações.
O regime os declarara subversivos no primeiro século de poder — memórias codificadas em melodia, mapas transformados em música, toda a história de um povo nômade comprimida em harmonias que passavam de boca em boca, de geração em geração, impossíveis de confiscar, impossíveis de queimar, impossíveis de destruir enquanto houvesse uma única voz disposta a carregá-las.
Kel'om cantava agora.
Sua voz era fraca — semanas de detenção, cotas de keth cortadas, tortura que Tha'lei não queria imaginar — mas ainda carregava a cadência. Ainda tinha a forma.
(Casca do caminho, fluxo de keth, erupção da luz...)
O primeiro Shar'nu avançou.
(Casca que caminha, casca que persevera...)
A lâmina desceu.
Kel'om cambaleou, mas não parou de cantar.
(...direção das profundezas, nas zonas mortas...)
Tha'lei reconhecia os padrões. Horas de aprendizado, noites sussurradas, a voz de Kel'om guiando a dela por melodias que eram mais que melodias.
Null'kai. As zonas mortas.
Vel'ra. A direção do fluxo.
Thessa. As profundezas.
Ele estava passando um mapa. Ali, na frente de todos, disfarçado como canto de morte. Um último presente para quem soubesse ouvir.
O segundo Shar'nu atacou.
Sangue floresceu na água.
(...nascimento das profundezas, fluxo profundo de vida...)
A voz de Kel'om falhou em uma nota, retomou na seguinte. Sua carapaça tinha uma nova rachadura, profunda, expondo carne que não deveria ver a luz.
Tha'lei cravou as nadadeiras na rocha para não avançar. Náusea subiu por sua garganta — quente, ácida, insistente. Todo o seu corpo tremia com uma vontade de gritar que não podia soltar, um grito que ficou preso entre suas costelas como algo vivo tentando escapar. Para não fazer nada além de testemunhar e memorizar.
Nu'lei. Nascimento.
Om'keth'ra. Fluxo profundo de vida.
Ele estava dizendo onde a resistência se encontrava. Para onde ela deveria ir.
O terceiro golpe.
O canto vacilou.
(...casca que persevera, casca que persevera, casca que vai em direção à luz...)
Repetição. Ênfase. Kelu'om — casca que persevera. Kelu'ra'lei — casca que se move em direção à luz.
Uma mensagem dentro da mensagem. Continue. Siga para a luz.
O quarto golpe silenciou a voz.
Mas não a melodia.
Ela continuava na cabeça de Tha'lei. Continuaria para sempre. Cada nota gravada em memória mais permanente que qualquer inscrição em rocha.
O corpo de Kel'om tombou lentamente, a gravidade da água mais gentil que qualquer coisa naquela praça. Os Shar'nu continuaram — metodicamente, eficientemente, como se estivessem realizando manutenção em vez de assassinato.
Levou quatro minutos para ele parar de se mover.
Tha'lei contou cada segundo.
Quando o bloom começou — energia vital subindo em espirais que faziam a água ao redor brilhar em tons de azul e verde — os guardas se posicionaram com coletores. Até o último suspiro de Kel'om seria propriedade do regime.
A multidão começou a se dispersar em silêncio ordenado. Ninguém corria. Ninguém chorava em público. Aqueles que tinham lágrimas as guardavam para depois, para os espaços escuros em que o regime não via, ou fingia não ver.
Tha'lei não se moveu.
A praça esvaziou.
Os guardas terminaram a coleta e partiram, levando os restos de Kel'om para descarte — ou estudo, ou qualquer outro destino que corpos de dissidentes encontravam nos níveis que ela preferia não imaginar.
Apenas quando o último reflexo de movimento desapareceu é que Tha'lei emergiu da fenda.
A água ainda carregava traços do bloom. Partículas bioluminescentes dançavam em correntes invisíveis, remanescentes de uma vida que existira há minutos e agora era apenas energia dispersa.
Ela se aproximou do centro da praça.
O sangue de Kel'om tinha se dissolvido quase completamente — a água de Thalassara era eficiente em apagar evidências. Mas havia uma mancha mais escura no coral, uma descoloração que levaria dias para desaparecer. A única marca de que ali, naquele ponto exato, alguém tinha morrido cantando.
Tha'lei tocou a mancha com uma nadadeira.
Fria. Claro que era fria. Sangue não retém calor na água.
Por que estou surpresa?
Ela não estava. Não realmente. Estava apenas procurando algo — qualquer coisa — que fizesse isso parecer real. Que transformasse o que tinha visto em algo que pudesse processar.
A execução de Kel'om deveria tê-la destruído.
Deveria tê-la deixado em pedaços no fundo da praça, chorando até que os guardas a encontrassem e a levassem para o mesmo destino.
Mas não.
O que sentia não era desespero.
Era algo diferente. Algo que queimava. Raiva — sim, havia raiva, ardendo nas bordas. Mas no centro, algo mais frio, mais afiado: determinação. A certeza nascendo da dor, como cristal formando-se sob pressão impossível.
Tha'lei se afastou da mancha e olhou para a estrutura imensa de Vo'kethara Central — a fortaleza que dominava o horizonte, construída sobre o controle de tudo que seu povo precisava para viver. Luzes bioluminescentes piscavam em padrões que significavam eficiência, ordem, poder. Guardas patrulhavam as entradas em formações que não deixavam espaço para esperança.
Ela deveria ter medo.
Tinha medo. Claro que tinha. Medo era sobrevivência em Thalassara.
Mas sob o medo havia outra coisa. Algo novo. Ou talvez algo velho, finalmente acordando.
Kelu'ra'lei.
A última mensagem de Kel'om.
Casca que se move em direção à luz.
Tha'lei fechou os olhos. Na escuridão atrás das pálpebras, repetiu o canto uma vez. Cada nota no lugar certo. Cada padrão preservado.
(Casca do caminho, fluxo de keth, erupção da luz...)
A melodia se desenrolou como um mapa.
Null'kai Oriental. Fluxo pelas correntes profundas. Entrada pelo ponto onde três fontes se encontram.
Era para lá que deveria ir.
Era lá que a resistência esperava.
Quando abriu os olhos, a praça ainda estava vazia. Vo'kethara ainda dominava o horizonte. O regime ainda controlava tudo.
Mas algo tinha mudado.
Kel'om passara vinte ciclos de sua vida preparando-a para um momento que ela esperava nunca precisar enfrentar. Ensinara os cantos quando era perigoso cantar. Contara histórias quando histórias eram contrabando. Plantara sementes que ela nem sabia que existiam até que florescessem.
Agora ele estava morto.
E ela estava viva.
E enquanto estivesse viva, tudo que ele ensinara também estaria.
Tha'lei tocou sua carapaça — os padrões que contavam a história de sua família, diferentes dos de Kel'om mas conectados por gerações de tradição. A rachadura antiga no lado esquerdo, presente desde que tinha memória, pulsou suavemente sob seu toque.
De onde veio essa rachadura?
Kel'om nunca explicara. Sempre mudava de assunto com gentileza habilidosa, desviando para outro canto, outra história, outro fragmento de conhecimento que ela ainda não tinha.
Talvez agora ela nunca soubesse.
Talvez não importasse.
O que importava era o que faria a seguir.
Tha'lei olhou uma última vez para a mancha escura no coral. Depois virou as costas e nadou em direção à saída da praça, mantendo-se nas sombras, movendo-se com a cautela que duas décadas em Thalassara ensinavam.
Tinha um longo caminho até Null'kai.
E pela primeira vez em sua vida, não estava fugindo de algo.
Estava indo em direção.
A fenda por onde saíra da praça levava a um túnel de manutenção que Kel'om lhe mostrara ciclos atrás. — Para emergências — ele dissera, com o sorriso que usava quando ensinava algo que o regime proibia. — Espero que nunca precise, mas é melhor saber.
Ela precisava agora.
O túnel era estreito — feito para Finn'ra de manutenção, não para Kelu'nu — e Tha'lei teve que comprimir a carapaça de formas desconfortáveis para avançar. A rocha raspava em seus padrões, e ela imaginou as marcas que deixaria, trilha visível para qualquer um que procurasse.
Depois me preocupo com isso.
Por enquanto, distância era prioridade.
O túnel se ramificava três vezes. Cada bifurcação, ela escolhia o caminho que afundava — para baixo, sempre para baixo, em direção às correntes profundas que o regime controlava menos porque custava mais vigiar.
A luz diminuía à medida que descia. A bioluminescência de Vo'kethara ficava para trás, substituída pela escuridão natural das profundezas. Sua própria carapaça começou a brilhar sutilmente — resposta involuntária à ausência de luz, os padrões que contavam sua história emitindo um brilho fraco que era suficiente para não colidir com paredes.
Kel'om brilhava mais forte.
O pensamento veio sem permissão.
Quando cantava, sua carapaça acendia como se houvesse fogo dentro. Como se a música fosse combustível.
Ela balançou a cabeça, forçando o pensamento para longe. Não podia se dar ao luxo de lembrar agora. Lembrar era parar. Parar era ser capturada.
O túnel finalmente se abriu em uma câmara natural — formação de rocha que existia antes de qualquer civilização, antes do regime, antes talvez do próprio Thalassara que conheciam. A água aqui era mais fria, correntes profundas trazendo temperatura das regiões onde keth era escasso e vida era teimosa.
Tha'lei parou para se orientar.
Null'kai Oriental. Fluxo através das correntes profundas.
O canto de Kel'om ecoava em sua mente, mapa em forma de música.
A corrente que precisava estava ao norte — podia sentir o fluxo puxando suavemente, direção inscrita no movimento da água. Se seguisse por dois dias, talvez três, chegaria às bordas de Null'kai. A partir daí, o canto tinha instruções mais específicas.
Entrada pelo ponto onde três fontes se encontram.
Ela conhecia o lugar. Kel'om descrevera tantas vezes que era quase memória própria, não herdada.
Você consegue, pequena.
A voz dele, subitamente presente.
Você consegue porque escolheu conseguir. Não porque alguém mandou. Não porque estava escrito. Porque você olhou para o que é e decidiu que não precisa ser assim.
Não era memória exata. Era construção — fragmentos de conversas costurados em algo que soava como ele, mas era ela falando consigo mesma usando a voz dele.
Não importava.
Funcionava.
Ela abriu os olhos.
A câmara natural se estendia em escuridão suave, correntes visíveis apenas pelo movimento de partículas suspensas. Um mundo inteiro existia além da luz de Vo'kethara. Um mundo que o regime fingia controlar mas nunca realmente alcançava.
Tha'lei ajustou sua posição, alinhando-se com a corrente norte. A água fria envolveu sua carapaça, prometendo quilômetros de escuridão antes de qualquer luz.
Kelu'ra'lei.
Casca que se move em direção à luz.
Ela começou a nadar.
No primeiro dia, não pensou.
Nadar era mecânico — movimento que o corpo conhecia desde antes da consciência, impulso que não requeria decisão. A corrente ajudava, carregando-a mais rápido do que conseguiria sozinha, e ela se entregou ao fluxo como Kel'om ensinara.
— Lutar contra a água é perder para a água. Entender a água é deixá-la te levar aonde precisa ir.
No segundo dia, a realidade começou a se infiltrar.
Kel'om estava morto.
Ela tinha visto. Tinha contado os segundos. Tinha memorizado cada golpe, cada nota do canto, cada momento em que a vida deixava um corpo que ela amava.
E agora estava sozinha.
A palavra tinha peso diferente na escuridão das correntes profundas. Sozinha significava ninguém para ajudar se fosse encontrada. Ninguém para cantar se a memória falhasse. Ninguém para dizer que estava fazendo a coisa certa quando a dúvida viesse.
E a dúvida veio.
O que estou fazendo?
A pergunta se formou enquanto nadava, e ela não tinha resposta satisfatória.
Indo para a resistência. Para lutar contra o regime.
Com o quê? Ela era uma Kelu'nu jovem sem treinamento militar, sem armas, sem nada além de uma carapaça que ainda estava crescendo e uma coleção de cantos que a maioria consideraria folclore obsoleto.
Com isso.
A resposta veio da parte dela que soava como Kel'om.
Com memória. Com persistência. Com a recusa de esquecer.
Não parecia suficiente.
Mas era o que tinha.
No terceiro dia, a corrente mudou.
Tha'lei sentiu antes de ver — a água ficando mais fria, mais carregada de partículas que não eram keth, sabor metálico que significava proximidade com as zonas mortas.
Null'kai.
Criada pelo regime quando desviaram o keth para suas estruturas de controle. O que antes era território habitável agora era deserto subaquático, frio e vazio, onde apenas os desesperados ou os rebeldes sobreviviam.
Ela diminuiu a velocidade, deixando a corrente passar enquanto avaliava.
O canto de Kel'om tinha instruções específicas a partir daqui. Sequências de notas que correspondiam a formações rochosas, padrões que indicavam caminhos seguros entre patrulhas.
(Caminho do silêncio, para o vazio...)
A melodia indicava uma formação à esquerda — três picos de rocha vulcânica que marcavam a entrada para o território da resistência.
Tha'lei ajustou o curso.
A água ficou mais fria ainda, e ela sentiu seu metabolismo desacelerar em resposta. Keth era mais escasso aqui — seu corpo já começava a conservar, reduzindo funções não essenciais para preservar energia.
Quanto tempo até a privação?
Duas semanas, talvez três. Kelu'nu armazenavam bem. Era uma das poucas vantagens de sua espécie.
Tempo suficiente para encontrar a resistência.
Esperava.
Os três picos emergiram da escuridão como dedos ósseos de um gigante adormecido — rocha vulcânica negra, porosa, coberta de veios que um dia brilharam com magma e agora estavam frios como túmulos. Cada formação tinha pelo menos trinta metros de altura, inclinando-se uma em direção à outra como conspiradores trocando segredos. Entre eles, a água girava em padrões que não eram naturais.
Entrada pelo ponto onde três fontes se encontram.
As fontes não eram fontes de keth, como ela primeiro pensara. Eram correntes. Três fluxos diferentes convergindo exatamente ali, criando um turbilhão suave que escondia a verdadeira entrada.
Tha'lei nadou para o centro do turbilhão.
A água girou ao seu redor, confundindo direções, testando sua orientação. Ela fechou os olhos e confiou no canto.
(Fluxo de luz, casca do caminho...)
Para baixo. Através do giro. Seguindo a corrente mais fria.
Quando abriu os olhos, estava em um túnel.
E havia luz à frente.
A luz era bioluminescência de dezenas de corpos — Kelu'nu, Finn'ra, até alguns que ela não reconhecia imediatamente. Estavam reunidos em uma câmara natural ampla o suficiente para abrigar centenas, paredes cobertas de inscrições que pareciam antigas.
Sentinelas a interceptaram antes que pudesse ir mais longe.
— Identificação. — O Kelu'nu que falou era mais velho que ela, carapaça marcada por cicatrizes que não eram de nascimento. — Como encontrou este lugar?
Tha'lei pensou em mentir. Descartou o pensamento.
— Kel'om me enviou.
O nome causou reação. Olhares trocados. Tensão aumentando.
— Kel'om foi executado há três dias — disse o sentinela. — Em Vo'kethara Central.
— Eu sei. Eu vi.
Silêncio.
— Ele cantou — ela continuou, quando ficou claro que precisava explicar. — Durante a execução. Os Cantos dos Caminhos. Ninguém mais pareceu perceber, mas eu... — A voz falhou. Ela engoliu. — Eu ouvi. Ele me ensinou a ouvir.
O sentinela estudou-a por um longo momento.
— Seu nome.
— Tha'lei.
Mais olhares trocados. Desta vez, com algo diferente. Reconhecimento?
— Espere aqui.
O sentinela desapareceu na câmara maior. Tha'lei ficou onde estava, cercada por guardas que não abaixavam a vigilância.
Minutos passaram.
Quando o sentinela voltou, trazia alguém.
Uma Kelu'nu que Tha'lei nunca vira antes. Menor que a maioria, mas de uma forma que sugeria compressão, não fragilidade. Cicatrizes cobriam toda a superfície visível de sua carapaça — não os padrões de nascimento, mas marcas de queimadura, dano químico, tortura prolongada.
Os olhos dessa Kelu'nu eram os mais velhos que Tha'lei já tinha visto. Velhos de uma forma que não tinha a ver com ciclos vividos.
— Então você é Tha'lei.
Não era pergunta.
— Sou.
— Kel'om falou de você. — A Kelu'nu se aproximou, movendo-se com economia de quem aprendeu que cada gesto pode custar. — Disse que você era teimosa. Que fazia perguntas demais. Que se recusava a aceitar respostas simples.
Tha'lei não sabia o que responder.
— Também disse — continuou a Kelu'nu — que você era a melhor aluna que ele já teve. Que sua memória era quase perfeita. Que os cantos viviam em você de uma forma que ele não via há gerações.
— Quem é você?
A pergunta saiu antes que pudesse contê-la.
A Kelu'nu cicatrizada quase sorriu. Quase.
— Meu nome é Keth'ra. Eu lidero o que resta da resistência neste setor. — Ela se virou, indicando que Tha'lei deveria seguir. — E se metade do que Kel'om disse sobre você é verdade, temos muito a conversar.
Tha'lei hesitou apenas um momento.
Depois seguiu.
A câmara principal era maior do que parecera à primeira vista. Centenas de seres viviam ali — trabalhando, descansando, sobrevivendo nas margens do que o regime considerava civilização.
Keth'ra guiou-a através de corredores improvisados, passando por grupos que paravam para olhar, sussurrar, especular. Tha'lei sentiu os olhares como peso físico.
— Eles sabem quem você é — disse Keth'ra, sem se virar.
— Por quê?
— Porque Kel'om não era discreto sobre sua fé em você.
Fé. A palavra era estranha.
— Fé em quê?
Keth'ra parou. Virou-se.
— Você nasceu durante uma Onu'flare. Não sabia?
Tha'lei piscou.
— Onu'flare... erupção de keth? O que isso tem a ver com—
— Nascidos durante Onu'flare são chamados Keth'lei. — Keth'ra a estudava com intensidade desconfortável. — Há uma profecia. Antiga. De antes do regime. Diz que um Keth'lei vai trazer equilíbrio de volta a Thalassara.
— Isso é... — Tha'lei balançou a cabeça. — Isso é superstição.
— Talvez. — Keth'ra deu de ombros, mas seus olhos não desviaram. — Ou talvez seja a única esperança que algumas pessoas têm. E Kel'om acreditava que você era essa esperança.
O peso daquelas palavras assentou sobre Tha'lei como água gelada.
Escolhida.
Era isso que os olhares significavam. Por isso Kel'om a protegera, ensinara, preparara com tanto cuidado.
Não porque ela era especial.
Porque ele acreditava que ela era especial.
— Eu não sou... — começou.
— Não importa o que você é ou não é. — Keth'ra a interrompeu com voz cortante. — O que importa é o que pode fazer. Profecia ou não, você tem conhecimento. Memória. Acesso a cantos que quase ninguém mais carrega.
— E o que você quer que eu faça com isso?
Keth'ra sorriu.
Não era um sorriso alegre.
— Quer mudar Thalassara, Tha'lei? Quer que a morte de Kel'om signifique alguma coisa?
Tha'lei pensou na praça. No sangue. No canto que se recusava a morrer.
— Sim.
— Então me siga. — Keth'ra se virou e continuou nadando. — Temos muito trabalho a fazer. E muito pouco tempo para fazê-lo.
Tha'lei olhou para trás uma última vez — para a entrada que deixara, para o mundo de controle e medo que existia além dessas paredes improvisadas.
Depois olhou para frente.
Keth'ra já estava distante, silhueta cicatrizada desaparecendo em um corredor que levava a qualquer que fosse o futuro que a esperava.
Kelu'ra'lei.
Casca que se move em direção à luz.
Tha'lei nadou atrás dela.
Sua voz importa nesta história
O que você sentiu ao testemunhar a execução de Kel'om?
Deixe sua marca nas profundezas de Thalassara.
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