Capítulo Dois

O Caminho Cantado

O canto não a deixava em paz.

Três dias haviam passado desde a execução, desde que Tha'lei seguira Keth'ra pelos túneis de manutenção que serpenteavam sob Finn'shara Sul. Três dias de movimento quase constante, de descansos breves em cavidades que a resistência mantinha escondidas, de refeições que mal mereciam o nome.

E durante todo esse tempo, a melodia de Kel'om ecoava em sua mente.

Thel'om'kai, vel'ra'keth, onu'lei'thara...
(Casca do caminho, fluxo de keth, erupção da luz...)

Tha'lei sabia que era um mapa. Kel'om havia lhe ensinado a estrutura dos Cantos dos Caminhos — cada frase codificava direção, cada harmonia indicava distância, cada pausa marcava perigo. Mas conhecer a estrutura era diferente de decifrar a mensagem.

Você cantou para mim, avô. Mesmo morrendo, cantou para mim.

O túnel em que nadavam agora era estreito demais para dois corpos lado a lado. Keth'ra ia à frente, sua silhueta cicatrizada cortando a penumbra com a eficiência de quem conhecia cada centímetro daquele caminho. Os padrões em sua carapaça — o que restava deles após anos de tortura — emitiam brilho fraco, apenas o suficiente para marcar sua posição.

— Pare de cantar — disse Keth'ra sem se virar.

Tha'lei não havia percebido que estava sussurrando a melodia.

— Desculpe.

— Som viaja longe nessas passagens. E não estamos sozinhos aqui.

Tha'lei engoliu a resposta que queria dar. Keth'ra não era cruel — apenas pragmática de uma forma que feria. Cada palavra cortada, cada gesto econômico, tudo nela gritava sobrevivência a qualquer custo.

Quanto custou para você se tornar isso?

O túnel se estreitou ainda mais, e Tha'lei precisou comprimir a carapaça para avançar. A rocha raspava em seus padrões, deixando marcas que contariam essa história — se ela sobrevivesse para contá-la.

* * *

Kel'om nunca explicara por que a escolhera.

Havia outras crianças no complexo residencial de Hab'shara Central, onde Tha'lei crescera após a morte de seus pais. Outras órfãs que poderiam ter aprendido os cantos, carregado a memória, preservado o que o regime queria apagar.

Mas ele escolhera ela.

— Os cantos não são apenas sons — dissera Kel'om, numa noite em que ambos fingiam dormir enquanto guardas passavam. — São caminhos. E caminhos precisam de caminhantes.

— Por que eu? — Tha'lei tinha oito ciclos na época, jovem demais para entender, velha demais para simplesmente aceitar.

— Porque você nasceu perguntando. — Os olhos âmbar dele brilhavam na penumbra. — A maioria nasce aceitando. Você nasceu questionando. Isso é raro. Isso é necessário.

Agora, nadando por túneis que não constavam em nenhum mapa oficial, Tha'lei finalmente entendia o que ele quis dizer.

Os cantos eram perguntas transformadas em melodia.

E ela estava aprendendo as respostas.

* * *

Segundo dia

A patrulha apareceu sem aviso.

Tha'lei e Keth'ra haviam parado para descansar em uma cavidade onde três túneis se encontravam — ponto de escolha que a resistência usava há gerações. A bioluminescência ali era mais forte, alimentada por veios de keth que o regime ainda não havia desviado.

Keth'ra dormia — ou fingia dormir, era difícil saber. Tha'lei trabalhava na melodia, separando cada frase do canto de Kel'om em seus componentes.

Vel'ra'thessa — direção das profundezas. Isso ela já sabia.

Null'kai'om — nas zonas mortas. Confirmado.

Mas havia uma terceira parte, uma sequência que não se encaixava nos padrões que conhecia:

...thara'kelu'lei, om'vel'ra...
(...luz da casca, caminho para dentro...)

Luz da casca? O que isso significa?

Foi então que a vibração atravessou a água.

Tha'lei conhecia aquela frequência. Todo habitante de Thalassara conhecia — era o som de Shar'nu em movimento coordenado, a assinatura acústica de uma patrulha.

Keth'ra já estava de pé, totalmente desperta, como se nunca tivesse fechado os olhos.

— Quantos? — sussurrou Tha'lei.

— Três. Talvez quatro. — Keth'ra movia-se em direção ao túnel mais estreito. — Por aqui. Rápido.

Tha'lei não questionou. Apenas seguiu.

O túnel era tão apertado que mal cabia um corpo. Keth'ra entrou primeiro, desaparecendo na escuridão como se a rocha a tivesse engolido. Tha'lei foi atrás, contraindo a carapaça até o limite do suportável, sentindo cada protuberância raspar contra a pedra.

Atrás dela, as vozes dos Shar'nu ecoavam.

— Movimento detectado neste setor — disse um deles, voz grave e distorcida pela água. — Ordens são verificar todas as cavidades.

Tha'lei parou de respirar.

Na frente, Keth'ra havia estancado também. Ambas imóveis, corpos pressionados contra a rocha, bioluminescência apagada por pura força de vontade — um truque que Finn'ra usavam quando predadores se aproximavam, antes de Thalassara existir.

Os segundos se arrastaram como horas.

— Cavidade vazia — disse outra voz, mais próxima agora. — Apenas veios residuais.

— E os túneis secundários?

— Estreitos demais para passagem adulta. Desconsiderados.

Tha'lei quase sorriu. Quase. Os Shar'nu eram feitos para violência, não para sutileza. Seus corpos largos e poderosos eram vantagem em combate, desvantagem em perseguição por espaços apertados.

A patrulha se afastou. As vibrações diminuíram. O silêncio voltou — pesado, precioso.

Keth'ra ainda esperou mais dez batimentos de coração antes de se mover.

— Sorte — disse ela, quando finalmente emergiram em outra cavidade. — Apenas sorte.

— Você sabia que eles não caberiam no túnel.

— Eu esperava. — Os olhos de Keth'ra encontraram os dela. — Esperar não é saber. Lembre-se disso.

* * *

A fronteira de Null'kai não era marcada.

Não havia placa, não havia parede, não havia nada que dissesse: aqui termina o mundo que você conhece e começa outro. Apenas uma mudança gradual — a luz diminuindo, a temperatura caindo, a vida desaparecendo.

Tha'lei percebeu a transição quando sua própria bioluminescência começou a falhar.

— Sua luz — disse, olhando para os padrões em sua carapaça, que piscavam e enfraqueciam. — O que está acontecendo?

— Keth. — Keth'ra não diminuiu o ritmo. — Ou melhor, falta dele. Null'kai é zona morta. O regime desviou tudo. Seu corpo está conservando energia.

O frio foi a segunda percepção. Não o frio de águas profundas, que era uniforme e constante. Este era diferente — invasivo, pessoal. Entrava pelas guelras, infiltrava-se nos músculos, transformava cada movimento em esforço consciente.

Como alguém vive aqui?

A resposta veio na forma de um corpo.

Flutuava na corrente fraca, preso entre duas formações rochosas. Um Finn'ra, pelas escamas, embora fosse difícil ter certeza — a morte em Null'kai não era como em outros lugares. Sem keth para alimentar decomposição, os corpos persistiam, preservados pelo frio que os matara.

Tha'lei desviou o olhar.

— Exilado — disse Keth'ra, sem emoção aparente. — Ou fugitivo que não conseguiu chegar. Há muitos.

— Vocês não... não os recolhem?

— Para quê? — Keth'ra finalmente parou, virando-se para encará-la. — Para enterrar em terra que não existe? Para queimar em fogo que não pode arder? — Ela balançou a cabeça. — Os mortos de Null'kai são lembretes. Do que o regime faz. Do que acontece quando você falha.

Tha'lei engoliu a bile que subia em sua garganta.

Então continuou nadando.

* * *

Terceiro dia

O primeiro sinal de vida foi um brilho.

Não muito — apenas um ponto de luz na escuridão absoluta que dominava Null'kai havia horas. Mas depois de tanto tempo em trevas, até uma fagulha parecia sol.

— Estamos perto — disse Keth'ra, e pela primeira vez em três dias, algo que poderia ser alívio tocou sua voz.

O ponto de luz se multiplicou. Dois. Cinco. Uma dezena. Todos fracos, todos conservados, mas todos vivos — bioluminescência de corpos que haviam aprendido a sobreviver onde sobreviver era considerado impossível.

A estrutura emergiu da escuridão como um sonho.

Não era bonita — Tha'lei não esperava beleza, não aqui. Era uma colmeia de coral morto e metal recuperado, estruturas empilhadas e interconectadas por túneis que pareciam veias em um corpo doente. Luzes improvisadas piscavam em padrões que ela reconhecia como código — identificação para quem sabia ler, ruído para quem não sabia.

— O que é isso? — perguntou, mesmo sabendo a resposta.

— Ponto de contato — disse Keth'ra. — O primeiro de muitos que você vai conhecer.

Uma figura emergiu da estrutura principal. Finn'ra, como Tha'lei suspeitara pela maioria da resistência. Escamas que um dia foram prateadas agora tinham tom acinzentado — efeito da privação prolongada. Mas os olhos... os olhos ainda tinham fogo.

Keth'ra. — A voz era feminina, áspera de cicatrizes que não se viam. — Você está atrasada.

— Patrulhas no setor sete. Tivemos que desviar.

Os olhos da Finn'ra se voltaram para Tha'lei. Estudando. Avaliando. Pesando.

— Então essa é ela. A que Kel'om escolheu.

Finn'thara — disse Keth'ra, num tom que era quase apresentação —, essa é Tha'lei. Tha'lei, essa é Finn'thara. Ela lidera este ponto.

— Liderar é palavra forte para o que fazemos aqui. — Finn'thara não estendeu nadadeira, não ofereceu saudação formal. Apenas continuou olhando. — Sobreviver é mais preciso.

— Quantos? — perguntou Tha'lei, antes que pudesse se conter.

— Quatrocentos e trinta e dois. — Finn'thara finalmente desviou o olhar, voltando-se para a estrutura atrás de si. — Éramos quinhentos quando chegamos, há três ciclos. O frio cobra seu preço.

Tha'lei pensou no corpo que haviam passado. Nos muitos corpos que provavelmente não havia visto.

Sessenta e oito mortos. Em três ciclos.

— Entrem — disse Finn'thara, já nadando em direção à entrada. — Vocês precisam de descanso. E de keth, pelo estado de vocês. — Ela pausou, olhando por sobre o ombro. — E eu preciso contar o que está vindo.

* * *

O interior do ponto de contato era tão apertado quanto Tha'lei imaginara.

Corpos se espremiam em espaços que não deveriam comportá-los. Famílias dividiam câmaras do tamanho de um único Kelu'nu adulto. Crianças — havia crianças aqui, percebeu Tha'lei com um aperto no peito — brincavam em silêncio aprendido, jogos que não faziam barulho.

A câmara de Finn'thara era marginalmente maior. Espaço suficiente para três corpos, se ficassem próximos. Um painel de bioluminescência improvisado fornecia luz alaranjada que lembrava calor sem fornecê-lo.

— Keth — disse Finn'thara, oferecendo um pequeno recipiente que brilhava com luz própria. — Não é muito. Mas vai ajudar.

Tha'lei aceitou. O keth era diferente do que conhecia — mais diluído, com gosto de mineral que não conseguia identificar. Mas quando atravessou suas guelras, sentiu a energia se espalhando, aquecendo, restaurando.

— Das correntes profundas — explicou Finn'thara, vendo sua expressão. — Veios que o regime ainda não encontrou. São raros, imprevisíveis. Mas nos mantêm vivos.

— Por enquanto — acrescentou Keth'ra, de um canto que escolhera para si.

— Por enquanto — concordou Finn'thara. Sem amargura, sem autocomiseração. Apenas fato. — O que me leva ao que preciso contar.

Ela se aproximou, e sua voz baixou ainda mais.

— Há três dias, um Shar'kai deixou Vo'kethara Central.

O nome fez o sangue de Tha'lei gelar mais do que o frio de Null'kai.

Shar'kai. Não um simples Shar'nu de patrulha. Um caçador. Elite entre a elite. Designado para alvos específicos.

— Sabemos quem o enviou — continuou Finn'thara. — Vo'mera, do Conselho Superior. E sabemos por quê.

— Por quê? — A voz de Tha'lei saiu mais fraca do que pretendia.

— Por você.

O silêncio que se seguiu tinha peso próprio.

— A execução de Kel'om foi transmitida para todas as Vo'kethara. — Finn'thara não desviava o olhar. — O canto dele também. Alguém no Conselho é esperto o suficiente para reconhecer os Cantos dos Caminhos. E para saber que, se ele cantou durante a morte, estava passando algo.

— Para quem? — perguntou Keth'ra.

— Para a Keth'lei que ele criou. — Finn'thara sorriu, mas não havia humor naquele sorriso. — As profecias são conhecidas, Keth'ra. Até pelo regime. Especialmente pelo regime.

Tha'lei sentiu o mundo estreitar ao seu redor.

Havia um caçador vindo. Por ela. Porque Kel'om cantara. Porque ela existia.

— Quanto tempo? — perguntou Keth'ra.

— Três dias desde que partiu. Conhecendo as rotas de um Shar'kai... — Finn'thara calculou. — Talvez dois dias até chegar às bordas de Null'kai. Menos se tiver informantes nas patrulhas.

— Então precisamos partir — disse Tha'lei, levantando-se.

— Você precisa descansar — cortou Keth'ra.

— Descansar? Com um caçador—

— Com um caçador vindo, você precisa de força para fugir. — Keth'ra se levantou também, cruzando o espaço entre elas. — Morra exausta no caminho ou morra descansada quando ele chegar. Escolha.

Finn'thara observava a troca em silêncio.

— Ela tem razão — disse finalmente. — Durmam. Recuperem. Ao amanhecer — o conceito era estranho em Null'kai, mas o significado permanecia — vocês partem para o Coração.

— O Coração? — Tha'lei não conhecia o termo.

— A base principal. — Finn'thara já se movia em direção à saída. — Onde a resistência de verdade acontece. Onde você vai descobrir se essa profecia vale alguma coisa.

Ela parou na entrada, silhueta recortada contra a luz fraca do corredor.

— E Tha'lei?

— Sim?

— O canto que Kel'om passou para você. A parte que você ainda não decifrou.

Como ela sabe?

Thara'kelu'lei — disse Finn'thara. — Luz da casca. É como nos chamamos. Os que resistem. Os que ainda brilham, mesmo quando o regime rouba toda a luz.

Ela sorriu — e dessa vez, havia algo de verdadeiro naquilo.

— Kel'om não estava apenas dizendo para onde ir. Estava dizendo com quem.

E então se foi, deixando Tha'lei com o eco de suas palavras e o peso de tudo que ainda não entendia.

* * *

Tha'lei não dormiu.

Não conseguia. Cada vez que fechava os olhos, via Kel'om cantando enquanto sangrava. Via o sorriso dele — aquele sorriso pequeno e triste de despedida. Via lâminas descendo e melodias subindo, e no centro de tudo, via a si mesma, observando de uma fenda, incapaz de fazer qualquer coisa exceto memorizar.

Memorizar. Era tudo que sabia fazer.

E agora um caçador vinha por causa dessa memória.

Keth'ra dormia — dessa vez de verdade, pelo ritmo de suas guelras. As cicatrizes em sua carapaça pareciam mais profundas na luz fraca, mapas de dor que Tha'lei não conseguia ler.

Quanto custou para você se tornar isso?

A pergunta voltou, mais insistente agora.

Quanto vai custar para eu me tornar algo também?

Ela pensou em Finn'thara e seus quatrocentos e trinta e dois sobreviventes. Pensou nas crianças brincando em silêncio. Pensou nos corpos flutuando na escuridão de Null'kai, lembretes eternos do que o regime fazia com quem ousava resistir.

Pensou em Kel'om, que sabia que morreria e ainda assim cantou.

Luz da casca.

Tha'lei olhou para seus próprios padrões bioluminescentes, fracos agora, quase apagados pela privação. Mas ainda ali. Ainda vivos.

Ainda brilhando, mesmo quando tudo conspirava para apagá-la.

Ela fechou os olhos de novo. Dessa vez, não viu Kel'om morrendo.

Viu o Coração. Um lugar que nunca visitara, construído de imaginação e esperança.

E nadou em sua direção.

Vel'ra'om.

O caminho para dentro.

No dia seguinte, elas partiram antes que a escuridão de Null'kai tivesse tempo de se tornar familiar.

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