Capítulo Três

O Coração

Partiram antes que a escuridão de Null'kai tivesse tempo de se tornar familiar.

O ponto de contato de Finn'thara ficava para trás — um aglomerado de câmaras escavadas na rocha vulcânica, paredes cobertas por veias de mineral escuro que absorviam a pouca luz bioluminescente como feridas abertas. O lugar fora uma estação de coleta de keth, gerações atrás. Agora era apenas casca vazia, habitada por aqueles que o regime considerava mortos.

Finn'thara observou-as da entrada — uma Kelu'nu de idade impossível de determinar, carapaça marcada por décadas de sobrevivência em Null'kai. Seus olhos, fundos nas órbitas, tinham a cor de alga em decomposição. Não houve despedida formal. Apenas um aceno breve, econômico, de quem já vira muitos partirem e poucos voltarem.

Keth'ra'lei — murmurou ela, quando Tha'lei passou.

Que a vida flua.

Tha'lei repetiu a saudação, mas as palavras soaram ocas em sua boca. Vida fluindo era conceito abstrato em Null'kai, onde cada gota de keth era medida e racionada, onde corpos flutuavam preservados pelo frio que os matara.

Keth'ra não olhou para trás.

— O Coração fica a dois dias daqui — disse ela, já nadando em direção à escuridão. — Se mantivermos ritmo constante. Se não encontrarmos patrulhas. Se você conseguir acompanhar.

Três condições. Três formas de falhar.

Tha'lei observou a figura de Keth'ra recortada contra o vazio que se abria à frente. A resistente era mais alta que a maioria das Kelu'nu — quase dois metros de músculos endurecidos pela privação. Sua carapaça, um mosaico de tons entre o cinza-ardósia e o verde desbotado, carregava as marcas de uma vida inteira em guerra: cicatrizes que cortavam os padrões bioluminescentes em linhas brancas de tecido morto, uma nadadeira dorsal parcialmente amputada que se curvava em ângulo errado, queimaduras químicas no lado esquerdo do pescoço que subiam até a mandíbula. Os olhos eram o mais perturbador — não pela cor, um âmbar comum entre os de sua linhagem, mas pela forma como nunca piscavam por tempo demais. Como se cada momento de escuridão fosse uma oportunidade perdida para detectar ameaças.

Tha'lei não respondeu. Apenas seguiu.

* * *

As primeiras horas foram silêncio.

Null'kai era diferente de qualquer lugar que Tha'lei conhecera. Não havia paredes para guiar, não havia correntes quentes para seguir. O fundo oceânico aqui era uma planície interminável de sedimento cinzento, pontilhada por formações de rocha negra que se erguiam como dedos acusadores apontando para um céu que nunca existiu. De vez em quando, passavam por estruturas que podiam ter sido construções — arcos de metal corroído, tubulações colapsadas, o esqueleto de algo que um dia fora uma estação de processamento de keth. Tudo morto. Tudo abandonado há tempo suficiente para que a própria água parecesse ter esquecido que vida era possível.

A temperatura era o que mais perturbava Tha'lei. Em Vo'kethara, mesmo nos setores mais pobres, a água mantinha um calor mínimo — resíduo do keth que pulsava pelas veias da cidade. Aqui, o frio era absoluto. Penetrava pela carapaça, infiltrava-se nos músculos, assentava nos ossos. Era o tipo de frio que não machucava imediatamente — apenas esperava, paciente, até que o corpo não tivesse mais energia para combatê-lo.

Keth'ra navegava por instinto — ou por memória, era difícil saber. Seus movimentos eram precisos, cada mudança de direção deliberada, como se seguisse um mapa invisível gravado em algum lugar atrás de seus olhos cicatrizados. De tempos em tempos, ela parava junto a uma formação rochosa específica, passando os dedos por marcas que Tha'lei não conseguia distinguir do restante da superfície corroída.

Quantas vezes ela fez esse caminho?

A pergunta formou-se na mente de Tha'lei, mas não alcançou sua boca. Havia algo na postura de Keth'ra que desencorajava perguntas — uma tensão nos ombros largos, uma vigilância constante que não se permitia relaxar nem por um segundo.

Tha'lei olhou para suas próprias mãos enquanto nadava. Sua carapaça era mais jovem, mais suave — tons de azul-petróleo manchados por verde-mar que mudavam sutilmente conforme a luz. Ou conforme a ausência dela. Seus padrões bioluminescentes, herança genética que deveria pulsar em espirais complexas ao longo dos braços e do torso, estavam quase apagados agora. Apenas um brilho fraco, doentio, como velas prestes a se extinguir.

— Você está brilhando menos — disse Keth'ra, sem se virar.

— É normal?

— Em Null'kai, sim. Seu corpo está aprendendo a economizar. — Uma pausa. Keth'ra diminuiu o ritmo, permitindo que a distância entre elas se fechasse. — Os que sobrevivem aqui aprendem rápido. Os que não aprendem...

Ela não completou. Não precisava. Haviam passado por três corpos nas últimas horas — formas congeladas flutuando em posições que sugeriam que a morte chegara enquanto ainda tentavam nadar. Rostos preservados pelo frio em expressões de surpresa, como se não tivessem acreditado que era possível simplesmente... parar.

* * *

Primeiro dia — tarde

Foi Keth'ra quem quebrou o silêncio.

— Você sabe por que te trouxeram para Null'kai?

A pergunta veio sem aviso, direta como uma lâmina. Keth'ra ainda não se virara — continuava nadando, costas voltadas para Tha'lei. Suas nadadeiras traseiras moviam-se em ritmo constante, deixando trilhas mínimas de perturbação na água parada.

— Porque Kel'om cantou. Porque havia um mapa no canto dele.

— Isso é o como. Não é o porquê.

Tha'lei pensou. A resposta óbvia era a profecia — Keth'lei, nascida durante Onu'flare, destinada a grandes coisas. Mas algo na voz de Keth'ra sugeria que essa não era a resposta que ela procurava.

— Porque... alguém precisa carregar a memória?

— Mais perto. — Keth'ra finalmente diminuiu o ritmo, permitindo que Tha'lei nadasse ao seu lado. — Mas ainda não é isso.

— Então o quê?

Os olhos de Keth'ra eram duros como coral morto quando encontraram os dela. De perto, Tha'lei podia ver os detalhes das cicatrizes em seu rosto — três linhas paralelas descendo da testa até a bochecha esquerda, profundas o suficiente para ter atingido osso. Garras, talvez. Ou lâminas projetadas para parecer garras.

— Porque precisamos de algo em que acreditar. — Não havia cinismo na voz, apenas fato. — A resistência está fragmentada. Espalhada por dezenas de pontos de contato em Null'kai, alguns com centenas de membros, outros com menos de vinte. Sobrevivendo, não vivendo. As pessoas precisam de esperança para continuar lutando.

— E eu sou a esperança?

— Você é o que disseram que a esperança deveria parecer. — Keth'ra desviou o olhar, voltando a nadar. — Nascida durante Onu'flare, quando as fontes de keth brilharam mais forte do que em gerações. Treinada pelo próprio Kel'om, o último dos grandes cartógrafos. Jovem o suficiente para não lembrar de como era antes, velha o suficiente para odiar como é agora.

Tha'lei sentiu algo apertar em seu peito — um nó que não era físico, mas pesava como se fosse.

— Você não acredita na profecia.

Não era pergunta.

Keth'ra riu — um som curto, áspero, que não tinha nada de humor. A risada fez as cicatrizes em seu pescoço se moverem de forma perturbadora.

— Eu acredito no que vejo. No que faço. No sangue que já derramei e no sangue que ainda vou derramar. — Ela aumentou o ritmo, e Tha'lei teve que se esforçar para acompanhar. — Profecias são histórias que contamos para tornar o horror suportável.

Então por que me trouxe até aqui?

A pergunta queimava, mas Tha'lei não a fez. Tinha medo da resposta.

* * *

A primeira parada foi em Vor'numa — uma cavidade natural escondida em um afloramento de basalto, invisível até que estivessem a poucos metros da entrada.

Por fora, era apenas mais uma formação rochosa entre milhares. Por dentro, revelava-se um espaço do tamanho de um pequeno quarto, paredes cobertas por uma crosta de minerite — o mesmo mineral escuro que absorvia luz no ponto de contato de Finn'thara, mas aqui em concentração suficiente para criar uma sensação de vazio absoluto. Era como flutuar dentro de um buraco no tecido da realidade.

O chão da cavidade era coberto por uma camada de sedimento compactado, marcado por impressões de corpos. Outros haviam descansado ali antes. Muitos outros, pelo número de marcas sobrepostas.

Keth'ra distribuiu keth racionado — duas cápsulas do tamanho de unhas, feitas de uma membrana que se dissolvia na água e liberava a energia diretamente nas guelras. Tha'lei sentiu o calor se espalhando por seu corpo em ondas lentas, aquecendo apenas o suficiente para lembrar o que calor significava.

— Durma — disse Keth'ra. — Eu vigio.

— Você não precisa descansar?

— Eu descanso quando estamos seguros. — Os olhos de Keth'ra varriam a escuridão além da entrada, pupilas dilatadas ao máximo para captar qualquer vestígio de luz. — E não estamos seguros.

Tha'lei queria argumentar, mas o cansaço era mais forte. Encontrou um espaço entre as marcas no sedimento e deixou seu corpo afundar. Fechou os olhos.

E sonhou.

Ela tinha seis ciclos. A sala era pequena, pouco maior que um armário, escondida atrás de painéis falsos no complexo residencial de Hab'shara Central — um dos milhares de cubículos idênticos onde famílias de trabalhadores eram empilhadas como larvas em uma colmeia.

Kel'om estava ali, como sempre. Era um Kelu'nu de idade avançada, carapaça gasta pelo tempo até adquirir a cor de osso antigo, mas os padrões bioluminescentes ainda pulsavam fortes — âmbares e dourados que transformavam o espaço apertado em algo quase aconchegante. Seu rosto era uma rede de rugas que se aprofundavam quando sorria, e ele sorria sempre que a via.

— Toque aqui — ele disse, guiando a nadadeira dela até a própria carapaça. — O que você sente?

Os dedos de Tha'lei encontraram uma linha irregular — uma rachadura que atravessava o lado esquerdo de sua casca, do ombro até quase a cintura. Não era como as cicatrizes de Keth'ra, feitas de violência externa. Era algo diferente. Algo que vinha de dentro.

— Uma marca.

— Mais que isso. — Kel'om sorriu, aquele sorriso triste que ela só entenderia ciclos depois. — É uma história. A primeira história da sua vida.

— Que história?

Ele não respondeu. Nunca respondia quando ela perguntava sobre a rachadura.

Em vez disso, começou a cantar.

Tha'lei acordou com a mão tocando sua própria carapaça — a rachadura antiga, presente desde antes de sua memória mais remota. Seus dedos traçaram o caminho familiar: a linha principal descendo do ombro, as ramificações menores que se espalhavam como raízes de uma planta morta, o ponto onde a casca havia quebrado e curado de forma imperfeita, deixando uma textura áspera que nunca se suavizou.

Que história você guardou de mim, avô?

Keth'ra estava exatamente onde a deixara, olhos fixos na escuridão além da entrada de Vor'numa. A luz bioluminescente dela também estava fraca — mas controlada, deliberada, um brilho mínimo suficiente apenas para que Tha'lei pudesse ver seu perfil recortado contra o vazio.

— Você fala enquanto dorme — disse ela, sem se virar.

Tha'lei sentiu calor subir por suas guelras.

— O que eu disse?

— Nomes. Fragmentos de cantos. — Uma pausa. — "Por que a rachadura."

Silêncio.

— Você sabe por que minha carapaça é assim?

Keth'ra finalmente se virou. Algo que poderia ser surpresa passou por seu rosto — uma microexpressão, logo substituída pela máscara habitual de vigilância controlada.

— Kel'om nunca te contou?

— Nunca.

Os olhos âmbar de Keth'ra a estudaram por um longo momento. Tha'lei teve a sensação de estar sendo avaliada — pesada, medida, julgada por algum critério que não conseguia compreender.

— Então talvez eu também não deva.

Antes que Tha'lei pudesse protestar, Keth'ra já estava de pé, músculos se desenrolando com a fluidez de predador acostumado a economizar energia.

— Hora de partir. O Coração espera.

* * *

Segundo dia

O segundo dia trouxe perguntas que Tha'lei não queria fazer.

O terreno mudava à medida que avançavam para o interior de Null'kai. A planície cinzenta deu lugar a um labirinto de formações vulcânicas — pilares de basalto torcidos em espirais impossíveis, câmaras de lava antigas agora cheias de água morta, fissuras que se abriam no fundo oceânico como bocas famintas. Era um lugar feito de violência geológica, de calor que há muito se extinguira.

De vez em quando, passavam por vestígios de habitação — ruínas que talvez tivessem sido aldeias, antes que o keth secasse e Null'kai se tornasse o que era agora. Paredes de coral cultivado, colapsadas. Câmaras de incubação, vazias. Em um ponto, um arranjo de pedras que podia ter sido um templo ou um memorial, agora irreconhecível.

— O Shar'kai — começou ela, quando já haviam percorrido metade da distância. — O que você sabe sobre ele?

Keth'ra não respondeu imediatamente. Continuou nadando entre dois pilares de basalto, o ritmo inalterado, como se a pergunta precisasse de tempo para ser processada.

— O nome dele é Vorn.

Um nome. Isso tornava tudo mais real. Mais próximo.

— Você o conhece?

— Conheço a reputação. — A voz de Keth'ra era cuidadosamente neutra, como quem descreve o tempo ou a profundidade da água. — Setenta e três caçadas bem-sucedidas. Nenhum alvo perdido. Nenhuma fuga. Híbrido de linhagem desconhecida, modificado pelo regime desde filhote.

Tha'lei engoliu em seco. O movimento fez bolhas subirem de suas guelras.

— Modificado como?

— Keth alterado. O tipo que cria dependência, que transforma guerreiros em armas. — Keth'ra finalmente olhou para ela, e havia algo em seus olhos que poderia ser compaixão ou poderia ser apenas reconhecimento de uma verdade desconfortável. — Os Shar'kai não são apenas treinados para matar, Tha'lei. São feitos para isso. O regime pega filhotes com potencial genético específico e os reconstrói do zero. Ossos reforçados. Sentidos ampliados. Dependência química que garante lealdade.

A escuridão de Null'kai pareceu ficar mais densa. Mais presente.

— E ele está vindo por mim.

— Sim.

— Por que não fugimos mais rápido? Por que não—

— Porque fugir não funciona. — Keth'ra parou de nadar, virando-se para encará-la completamente. Sua silhueta bloqueava a pouca luz que vinha de suas próprias marcas bioluminescentes. — Tha'lei, você precisa entender algo. O Shar'kai vai te encontrar. Não importa para onde você fuja, não importa quão bem se esconda. Ele foi designado. Ele não vai parar.

— Então o que fazemos?

— Preparamos você.

— Para quê? Para morrer?

Keth'ra sorriu. Era um sorriso estranho, quase triste, que fazia as cicatrizes em seu rosto se moverem em padrões perturbadores.

— Para escolher. Quando chegar a hora — e vai chegar — você vai ter que escolher quem quer ser. A que foge, ou a que enfrenta. A que morre gritando, ou a que morre cantando.

Tha'lei pensou em Kel'om. Nas lâminas descendo enquanto sua voz subia, cantando mapas de lugares que talvez nunca existissem, transformando morte em memória.

— E se eu não quiser morrer de nenhum jeito?

O sorriso de Keth'ra se alargou — e dessa vez, havia algo de genuíno nele. Algo que quase parecia aprovação.

— Então você está aprendendo.

* * *

A conversa que Tha'lei temia veio quando já podiam ver as primeiras luzes do Coração — pontos distantes na escuridão, como estrelas em um céu invertido.

Keth'ra parou de nadar.

— Antes de chegarmos, há algo que você precisa ouvir.

Tha'lei sentiu o estômago afundar. A pressão da água parecia ter aumentado.

— O quê?

— No Coração, você vai encontrar pessoas que acreditam em você. Que vão olhar para você como se fosse a resposta para todos os problemas de Thalassara. — Keth'ra se aproximou, e sua voz baixou até se tornar quase inaudível. — Elas estão erradas.

— Eu sei que não sou—

— Você não sabe nada. — A interrupção foi cortante, cada palavra pronunciada com precisão cirúrgica. — Você sabe cantar. Sabe lembrar. Sabe fugir pelos túneis e chorar pelo seu avô morto. Mas você nunca matou. Nunca sacrificou. Nunca fez uma escolha que custasse a vida de outra pessoa.

As palavras eram como golpes. Precisos. Inevitáveis.

— Profecia ou não, Tha'lei — Keth'ra a segurou pelos ombros, seus dedos ásperos afundando na carapaça jovem de Tha'lei, forçando contato visual — você vai ter que provar que vale o sangue que já foi derramado por você. Kel'om morreu cantando seu nome. Finn'thara está arriscando seu povo para te esconder. E quando o Shar'kai chegar, outros vão morrer tentando te proteger.

Quanto sangue custa uma profecia?

— O que você quer que eu faça?

— Que pare de se perguntar se merece estar aqui e comece a se tornar algo que mereça. — Keth'ra a soltou, seus braços caindo ao lado do corpo com uma finalidade que encerrava a conversa. — O resto vem com o tempo. Se você sobreviver.

Tha'lei queria chorar. Queria gritar que não tinha pedido nada disso, que Kel'om escolhera por ela, que a profecia era uma prisão tanto quanto qualquer Vo'kethara.

Mas não fez nada disso.

Em vez disso, endireitou os ombros — sentiu a rachadura em sua carapaça se ajustar ao movimento — e nadou em direção às luzes do Coração.

* * *

O Coração não era como Tha'lei imaginara.

Nas suas fantasias — alimentadas pelos cantos de Kel'om e pelos sonhos de uma criança que precisava acreditar em algo — era uma cidade inteira, um contraponto luminoso à escuridão do regime. Torres de coral vivo, ruas pulsando com keth livre, milhares de resistentes vivendo em liberdade que o resto de Thalassara esquecera existir.

A realidade era diferente.

O Coração era construído dentro de uma caldeira vulcânica morta — uma cratera de quase um quilômetro de diâmetro, paredes de basalto negro erguendo-se ao redor como as costelas de um leviatã fossilizado. No centro, onde um dia magma borbulhara, havia agora um emaranhado de estruturas que desafiava qualquer planejamento: cápsulas habitacionais empilhadas umas sobre as outras em torres instáveis, plataformas de metal corroído conectadas por redes de cordas de alga trançada, tendas de membrana orgânica que ondulavam na água parada como medusas presas.

A iluminação vinha de três fontes. A primeira eram os próprios habitantes — milhares de corpos bioluminescentes cujo brilho combinado criava um halo difuso que envolvia todo o assentamento. A segunda eram cultivos de alga luminescente, crescendo em tanques improvisados ao longo das paredes da caldeira, pulsando em verde e azul com a regularidade de um coração batendo. A terceira eram tochas de keth — pequenas chamas subaquáticas que queimavam nos pontos de entrada, consumindo gotas preciosas de energia que poderia estar alimentando pessoas.

Era maior que o ponto de contato de Finn'thara, sim. Mais organizada, mais permanente. Mas ainda era uma cicatriz no vazio — uma ferida que se recusava a curar.

— Quase oito mil — disse Keth'ra, como se lesse seus pensamentos. — A maior concentração de resistentes em Null'kai. Talvez em toda Thalassara.

Oito mil. Em um mundo de milhões sob o regime.

A proporção era devastadora.

Guardas as interceptaram na entrada principal — uma fenda na parede da caldeira, alargada artificialmente e reforçada com vigas de metal extraído de naufrágios antigos. Eram três Kelu'nu de aparência exausta, carapaças desbotadas pelo tempo em Null'kai, olhos fundos de quem dormira pouco por ciclos demais. Reconheceram Keth'ra imediatamente, e algo que poderia ser alívio passou por seus rostos.

— Ela chegou? — perguntou um deles, olhando para Tha'lei com curiosidade mal disfarçada. Seus olhos se fixaram na rachadura em sua carapaça, na juventude de suas escamas, na forma como ela ainda brilhava apesar de tudo.

— Ela chegou — confirmou Keth'ra. — Avise o conselho. E preparem quartos. — Uma pausa. — E reforcem as patrulhas externas. Temos companhia vindo.

Os guardas trocaram olhares preocupados. Um deles — o mais velho, com uma cicatriz que cortava metade do rosto — fechou as mãos em punhos.

— Quanto tempo?

— Um dia. Talvez menos.

Tha'lei sentiu o peso daquelas palavras assentar sobre ela como água gelada. Um dia. Em um dia, o caçador estaria ali. Em um dia, pessoas que ela nunca conhecera iriam arriscar suas vidas para protegê-la. E ela ainda não sabia se estava pronta para enfrentá-lo — ou para fugir dele.

A entrada do Coração se abriu diante delas — uma garganta de pedra que levava ao interior da caldeira, às torres improvisadas, às milhares de vidas suspensas entre sobrevivência e resistência. Tha'lei nadou para dentro carregando o peso de expectativas que não pedira e o medo de um inimigo que não conhecia.

Profecia ou não, você vai ter que provar.

As palavras de Keth'ra ecoavam enquanto a escuridão do Coração a engolia, substituída aos poucos pelo brilho de milhares de corpos que haviam escolhido viver nas sombras em vez de morrer na luz do regime.

Nas Bordas de Null'kai

Vorn

O rastro era fraco, mas estava ali.

Vorn pairava na fronteira onde a água ainda tinha vida e onde começava o vazio. A transição era clara até para sentidos normais — de um lado, correntes mínimas carregando partículas de keth, vestígios de metabolismo, sinais de existência; do outro, nada. Apenas água morta se estendendo até onde a percepção alcançava.

Seus sentidos não eram normais.

As modificações começaram quando ele tinha três ciclos — filhote demais para se opor, velho demais para esquecer. Implantes químicos nas guelras que permitiam filtrar informação de cada partícula que passava. Alterações neurais que transformavam padrões de corrente em mapas tridimensionais em sua mente. Olhos modificados que viam no espectro além do visível, detectando assinaturas térmicas que outros nem saberiam existir.

E, é claro, os ossos.

Vorn flexionou os dedos, sentindo a estrutura reforçada sob a carapaça. Seu esqueleto era 40% mais denso que o de um Kelu'nu normal — resultado de ciclos de tratamento com minerais extraídos de veias vulcânicas, injetados diretamente na medula enquanto os ossos ainda cresciam. O processo era doloroso de forma que palavras não conseguiam descrever. Também era irreversível.

Sua carapaça refletia a história. Era mais escura que a maioria — um cinza que beirava o preto, manchado por tons de vermelho-ferrugem onde sangue derramado há muito tempo deixara marcas que nunca saíram. Cicatrizes cortavam os padrões bioluminescentes em linhas que formavam quase um mapa — cada uma representando uma caçada, cada uma contando uma história que ele não queria lembrar.

Mas lembrava. Sempre.

Ele processou as correntes em volta dele, filtrando informação com a eficiência de uma máquina. Duas. Uma mais velha, pelos padrões de degradação das partículas de pele. Uma jovem — metabolismo mais rápido, mais desperdício, mais fácil de rastrear.

A jovem é o alvo.

A designação era clara: Tha'lei. Kelu'nu. Nascida durante Onu'flare. Treinada por um dissidente executado. Provável receptora de informações codificadas. Prioridade máxima.

Vorn já rastreara alvos assim antes. Jovens idealistas que achavam que cantos antigos e esperanças nostálgicas podiam mudar alguma coisa. Terminavam igual — sangue na água, energia coletada, mais um nome riscado de uma lista.

Setenta e três vezes.

Esta seria a setenta e quatro.

Ele avançou em direção a Null'kai, seu corpo cortando a água com eficiência brutal. Era maior que a maioria dos Shar'kai — quase dois metros e meio de músculo e osso reforçado, uma silhueta que não parecia inteiramente natural. Suas nadadeiras eram mais longas, mais afiadas nas bordas, modificadas para servir como armas quando necessário. Seu rosto era angular, quase geométrico, como se alguém tivesse esculpido uma ideia de predador em vez de nascer um.

E cobrava seu preço.

O tremor veio sem aviso — um espasmo nas mãos que durou apenas um segundo, mas foi suficiente para quebrar seu ritmo perfeito. Vorn parou, observando seus próprios dedos como se pertencessem a outra pessoa. Estavam se contraindo em padrões que não controlava, músculos respondendo a impulsos que vinham de algum lugar além de sua vontade.

Abstinência.

Fazia três dias desde a última dose de keth modificado. O regime fornecia regularmente — cápsulas seladas que chegavam toda manhã, entregues por drones que não faziam perguntas. A substância garantia que os Shar'kai permanecessem funcionais. Também garantia que permanecessem dependentes.

Longe de Vo'kethara, longe do suprimento controlado, o corpo começava a cobrar.

Não era problema. Ainda. Tinha reservas suficientes para completar a missão. Para encontrar a jovem, executar a designação, retornar. Quatro dias, talvez cinco. Tempo de sobra antes que os tremores se tornassem algo que não pudesse ignorar.

Simples.

Exceto que algo estava diferente desta vez.

Vorn não sabia nomear o que era. Uma hesitação que não deveria existir. Uma pergunta que não fazia sentido fazer. Desde que recebera a designação, algo incomodava — como uma pedra dentro da carapaça, irritando sem causar dor real.

Por que ela?

A pergunta era irrelevante. Designações não precisavam de justificativa. O regime decidia, os Shar'kai executavam. Era assim que funcionava. Era assim que sempre funcionara.

Mas a pergunta persistia.

Ele pensou no último alvo — uma Finn'ra velha que vendia informações em troca de keth extra para sua prole. Quando a encontrou, em um beco de Hab'vora Sul, ela não fugiu. Não implorou. Apenas o olhou com olhos que já tinham visto demais — olhos da cor de corais mortos — e disse: "Você sabe que é uma ferramenta, não sabe? Que quando não servir mais, vão te descartar como estão me descartando?"

Vorn a matou rapidamente. Mais rápido do que precisava, mais limpo do que o protocolo exigia. Não tinha certeza se foi misericórdia ou se foi para silenciá-la antes que dissesse mais.

Os tremores tinham começado naquela noite.

Agora, nadando em direção a Null'kai, ele se perguntava se eram apenas abstinência física — química faltando, corpo protestando — ou algo mais.

Algo quebrando.

O rastro das duas Kelu'nu apontava para o interior da zona morta. Para algum lugar que o regime não mapeara completamente. Um refúgio, provavelmente. A resistência tinha alguns — bolsões de sobrevivência que o regime tolerava enquanto não se tornavam inconvenientes demais.

Este estava se tornando.

Não importava. Vorn encontraria. Vorn sempre encontrava. Era para isso que existia — para isso que fora feito, moldado, quebrado e reconstruído até não sobrar nada além de função.

Ele ajustou o curso, seguindo as partículas quase invisíveis que suas presas haviam deixado para trás. Seu corpo desapareceu na escuridão de Null'kai como uma sombra sendo engolida por sombra maior — silencioso, inevitável, paciente.

Em algum lugar à frente, sua setenta e quarta caçada esperava.

Pela primeira vez em setenta e três missões, Vorn sentiu algo além de função.

Curiosidade.

O sentimento era estranho. Desconfortável. Como músculos que não se moviam há tanto tempo que esqueceram como funcionar. Ele não sabia o que fazer com ele — se deveria alimentá-lo ou sufocá-lo.

Por enquanto, apenas nadou.

A resposta viria quando encontrasse a garota.

Shar'om'kai.

O caminho da lâmina.

Nas profundezas de Null'kai, caçador e caça nadavam em direção ao mesmo ponto — sem saber que quando se encontrassem, nenhum dos dois seria o mesmo.

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