O Coração não dormia.
Tha'lei descobriu isso nas primeiras horas após sua chegada, quando o que deveria ser descanso se transformou em uma procissão interminável de rostos, perguntas e olhares que carregavam peso demais. Os habitantes do Coração vinham vê-la como quem visita um oráculo — esperançosos, céticos, desesperados. Alguns apenas queriam confirmar que ela era real. Outros queriam tocar sua carapaça, como se a profecia pudesse ser transmitida pelo contato.
— Chega.
A voz cortou a pequena multidão que se acumulara diante da câmara que haviam designado para Tha'lei. Keth'ra emergiu da entrada como uma lâmina emergindo da bainha — silenciosa, inevitável. Bastou um olhar para que os curiosos se dispersassem.
— O conselho quer vê-la — disse Keth'ra, quando estavam sozinhas. — Agora.
— Pensei que eu teria tempo para—
— Tempo é o que não temos.
A câmara do conselho ficava no centro do Coração — uma bolha natural na rocha vulcânica, ampliada por gerações de trabalho manual até comportar uma mesa circular de coral morto e os sete assentos ao seu redor.
Cinco estavam ocupados.
Tha'lei reconheceu dois dos presentes: Keth'ra, que tomou posição junto à entrada como sentinela, e Finn'thara, cujas escamas acinzentadas pareciam ainda mais desbotadas sob a luz fraca das algas luminescentes. Os outros três eram desconhecidos — um Finn'ra de idade avançada com cicatrizes que cobriam metade do rosto, uma Kelu'nu ainda mais velha cujos padrões bioluminescentes haviam desbotado até se tornarem quase invisíveis, e algo que Tha'lei nunca vira antes.
O quinto membro do conselho era translúcido.
Não completamente — havia forma ali, substância suficiente para sugerir um corpo vagamente humanoide. Mas a luz passava através dele em ângulos estranhos, refratando em padrões que faziam os olhos de Tha'lei doerem se olhasse por tempo demais.
— Um Lumina'eth — sussurrou para si mesma.
— Vor'eth — disse a criatura translúcida, e sua voz era como água correndo sobre cristal. — Esse é o nome que uso entre os que precisam de nomes.
A Kelu'nu anciã se inclinou para frente. De perto, Tha'lei podia ver que sua carapaça não era apenas velha — era antiga. Padrões que deveriam contar histórias de família estavam gastos até a ilegibilidade, como inscrições em pedra corroídas por eras de corrente.
— Eu sou Vel'thara — disse ela, e o nome ressoou em Tha'lei como algo que deveria conhecer. — Guardiã do que resta dos Cantos. E você é a última aluna de Kel'om.
Não era pergunta.
— Sou.
— Então me mostre. — Os olhos de Vel'thara eram da cor de conchas quebradas, mas havia fogo por trás deles. — Cante o que ele te passou.
Tha'lei hesitou. O canto era dela — o último presente de Kel'om, a única coisa que restava dele além de memórias. Compartilhá-lo parecia uma traição.
— Criança. — A voz de Vel'thara suavizou, apenas um grau. — Eu ensinei Kel'om. Antes dele aprender a andar nas correntes, antes de conhecer o primeiro Canto, eu estava lá. Ele era meu aluno, como você foi dele. E o que ele te passou... — ela pausou, escolhendo palavras — ...não era apenas um mapa.
O que mais poderia ser?
Tha'lei abriu a boca. E cantou.
Kelu'ra, kelu'om, vel'ra'thessa, null'kai'om...
Thara'kelu'lei, om'vel'ra...
(Casca do caminho, fluxo de keth, erupção da luz...
Casca que caminha, casca que persevera, direção das profundezas, nas zonas mortas...
Luz da casca, o caminho para dentro...)
Quando a última nota se dissipou, o silêncio na câmara tinha peso próprio.
Vel'thara havia fechado os olhos. Suas mãos tremiam sobre a mesa de coral — não de fraqueza, mas de algo mais profundo. Quando voltou a abrir os olhos, havia lágrimas neles.
— Ele completou — sussurrou ela. — Depois de todos esses ciclos, o teimoso finalmente completou.
— Completou o quê?
— O Canto da Origem. — Vel'thara se levantou, movendo-se ao redor da mesa até estar diante de Tha'lei. — Há três partes. A primeira é o caminho — onde ir, como chegar. A segunda é o propósito — thara'kelu'lei, encontrar os que ainda brilham. Mas a terceira... — ela estendeu a mão, tocando a rachadura na carapaça de Tha'lei — ...a terceira é você.
— Eu não entendo.
— Om'vel'ra. O caminho para dentro. — Os dedos de Vel'thara traçaram a linha da rachadura, do ombro até onde desaparecia sob a carapaça. — Kel'om não estava cantando sobre você. Estava cantando para você. Para despertar o que está dentro.
Tha'lei quis recuar, mas seus músculos não respondiam. A rachadura em sua carapaça — aquela marca que carregava desde antes de ter memória — pulsou sob o toque de Vel'thara. Não doeu. Foi pior. Foi como se algo adormecido há muito tempo estivesse se espreguiçando.
— O que está dentro de mim?
Vel'thara abriu a boca para responder.
O alarme soou.
O som era algo que Tha'lei nunca ouvira — uma vibração de baixa frequência que atravessava a água e fazia os ossos ressoarem. Em segundos, a câmara do conselho se transformou em caos controlado. Keth'ra já estava em movimento, arma em punho. Finn'thara gritava ordens para mensageiros que apareciam e desapareciam pelas entradas. Vor'eth simplesmente... se dissolveu, sua forma translúcida se fragmentando em milhares de partículas que desapareceram nas paredes.
— O perímetro norte — anunciou um guarda que irrompeu pela entrada principal. — Um único invasor. Ele... — o guarda engoliu em seco — ...ele passou por três postos.
— Mortos? — perguntou Keth'ra.
— Não. Inconscientes. Ele não os matou.
Algo naquela informação fez Keth'ra pausar. Tha'lei viu a confusão passar pelo rosto cicatrizado dela — uma rachadura na máscara de eficiência que raramente se abria.
— Um Shar'kai que não mata... — murmurou Finn'thara.
— Não importa — cortou Keth'ra, recuperando a compostura. — Temos que tirá-la daqui.
Tha'lei sabia que "ela" era ela mesma. Sabia que deveria se mover, seguir, fugir como fizera tantas vezes desde que Kel'om morrera cantando seu nome.
Mas algo havia mudado.
— Não.
A palavra saiu antes que pudesse contê-la. Keth'ra parou no meio do movimento, virando-se com uma expressão que misturava surpresa e irritação.
— O quê?
— Você disse que eu precisava provar. — Tha'lei sentiu sua própria voz como se viesse de longe, de algum lugar mais profundo do que conhecia. — Que precisava parar de fugir e começar a enfrentar.
— Eu disse para você se preparar. Você não está—
— Se eu fugir agora, ele vai seguir. Vai matar quem tentar pará-lo. — Tha'lei olhou ao redor da câmara, para os rostos tensos do conselho, para Vel'thara que ainda a observava com olhos antigos demais. — Quantos vão morrer me protegendo?
Silêncio.
— Todos nós, se necessário — disse Vel'thara, sem hesitação.
— Então me deixe fazer isso valer alguma coisa.
Perímetro Norte do Coração
Vorn
Os tremores estavam piores.
Vorn avançava pelo labirinto de estruturas improvisadas que compunham o assentamento, cada passo calculado, cada movimento eficiente. Seu corpo ainda funcionava — os músculos modificados respondiam aos comandos, os sentidos ampliados filtravam informações da água ao redor. Mas havia algo errado nas bordas. Uma vibração que não conseguia controlar. Uma hesitação que não deveria existir.
Havia deixado três guardas vivos.
Por quê?
A pergunta era irritante porque não tinha resposta satisfatória. Protocolos eram claros: testemunhas eram riscos, riscos eram eliminados. Era assim que funcionava. Era assim que sempre funcionara.
Mas quando o primeiro guarda apareceu — um Kelu'nu jovem, quase filhote, olhos arregalados de terror — Vorn simplesmente... não conseguiu. Sua mão se moveu, sim. Mas para golpear, não para matar. E depois, com os outros dois, havia sido igual. Golpes precisos em pontos não-letais. Corpos desabando inconscientes em vez de mortos.
Os tremores aumentaram. Vorn cerrou os punhos, forçando os músculos a obedecer.
Abstinência. É apenas abstinência.
Tinha que ser. A alternativa — que algo em sua programação estava falhando, que as palavras daquela Finn'ra velha estavam corroendo fundações que ele achava inabaláveis — era inaceitável.
O rastro da jovem Kelu'nu era forte agora. Partículas de pele, assinaturas químicas, tudo apontando para o centro do assentamento. Ela estava perto. Minutos de distância. A setenta e quarta caçada estava quase completa.
Então por que parte dele queria que não estivesse?
Vorn sacudiu a cabeça, afastando o pensamento. Avançou.
O túnel se abriu em uma câmara circular — maior que as outras, com paredes de basalto negro e um teto que se perdia na escuridão. Bioluminescência de dezenas de fontes diferentes criava uma luz estranha, fragmentada, como luar filtrado por água agitada.
E no centro, sozinha, estava ela.
A Keth'lei.
Vorn parou. Seus sentidos a catalogaram automaticamente: jovem, talvez vinte ciclos; carapaça em tons de azul-petróleo com manchas verde-mar; padrões bioluminescentes fracos mas presentes; e uma rachadura irregular descendo do ombro esquerdo, antiga, parte dela.
Ela não fugiu.
Isso o confundiu mais do que deveria. Alvos fugiam. Era o que faziam. Era o que os tornava alvos — a corrida, a perseguição, a inevitável captura. Mas essa... essa apenas ficou ali, olhando para ele com olhos que não eram de presa.
— Você é Vorn — disse ela.
Não era pergunta.
— Você é minha designação.
— Designação. — Ela repetiu a palavra como se testasse o gosto. — É assim que você vê as pessoas? Como designações?
Vorn não respondeu. Avançou um passo. Ela não recuou.
— Você não matou os guardas — continuou ela. — Por quê?
Os tremores voltaram, mais fortes. A pergunta era a mesma que ele vinha se fazendo, e ouvi-la em voz alta — na voz dela — foi como sal em ferida aberta.
— Irrelevante.
— Não é. — Ela deu um passo à frente. Em direção a ele. — Se você fosse apenas uma arma, teria matado. Armas não escolhem. Armas não hesitam.
— Eu não hesitei.
— Então por que estamos conversando?
A pergunta o atingiu como golpe físico. Ela tinha razão. Se fosse apenas designação, apenas função, já teria terminado. Um movimento, talvez dois. Energia coletada, corpo descartado, missão completa.
Mas ali estava ele. Parado. Conversando.
O que está acontecendo comigo?
Tha'lei observava o caçador como quem observa uma tempestade — com medo, sim, mas também com uma estranha fascinação.
Ele era exatamente como Keth'ra descrevera: imenso, quase dois metros e meio de músculo e osso modificado, carapaça escura manchada de vermelho-ferrugem onde sangue antigo deixara marcas permanentes. Mas havia algo que as descrições não capturavam. Uma tensão nos ombros que não era de predador prestes a atacar. Um tremor nas mãos que ele tentava esconder.
— Você está sofrendo — disse ela, e a observação saiu antes que pudesse contê-la.
Os olhos de Vorn se estreitaram. De perto, ela podia ver que eram de um âmbar escuro, quase marrom — não os olhos negros e vazios que imaginara. Havia algo neles. Algo que ainda não tinha morrido completamente.
— Abstinência — disse ele, como se admitir fraqueza fosse irrelevante. — Não muda nada.
— Muda tudo. — Tha'lei sentiu a rachadura em sua carapaça pulsar novamente, mais forte agora. Algo queria sair. Algo queria despertar. — Você sabe por que está aqui?
— Para completar minha designação.
— Não. — Ela deu outro passo. Estava perto demais agora, perto o suficiente para tocá-lo se estendesse a mão. — Você está aqui porque eles têm medo. O regime, o conselho, os Vora'makai que controlam tudo. Têm medo de uma profecia. Têm medo de uma história. — Ela tocou a própria carapaça, a linha da rachadura. — Têm medo de mim.
— Você deveria ter medo de mim.
— Eu tenho. — Era verdade. O coração de Tha'lei batia tão forte que ela tinha certeza de que ele podia ouvir. — Mas você também deveria ter medo de você mesmo. Do que está se tornando. Do que acontece quando a ferramenta começa a se perguntar por que serve.
Vorn se moveu.
Foi rápido — mais rápido do que qualquer coisa que Tha'lei já vira. Um momento ele estava parado, no seguinte sua mão estava no pescoço dela, dedos ásperos pressionando a carapaça logo abaixo da mandíbula. Não apertando. Não ainda. Apenas... segurando.
— Eu poderia terminar agora — disse ele, e sua voz era quase um sussurro. — Um movimento. Acabou.
— Poderia. — Tha'lei não conseguia respirar direito, mas forçou as palavras mesmo assim. — Mas não vai.
— Como sabe?
— Porque você está tremendo.
Era verdade. A mão que a segurava vibrava com espasmos que ele não conseguia controlar. Os tremores haviam piorado desde que a tocara, como se o contato tivesse acelerado algo em sua deterioração.
E então Tha'lei fez algo que não planejara.
Cantou.
(O caminho para dentro, sangue que ilumina...)
Não era o canto de Kel'om — ou não apenas. Era algo novo, algo que brotava da parte dela que a rachadura guardava. As palavras vinham de um lugar mais fundo que memória, mais antigo que aprendizado.
A rachadura em sua carapaça se abriu.
Não doeu — ou doeu de uma forma que transcendia dor. Luz escapou dela, luz que não era bioluminescência comum. Era dourada, intensa, e onde tocava a mão de Vorn, ele gritou.
O caçador recuou, soltando-a como se tivesse sido queimado. E havia sido — a carapaça de sua mão estava marcada onde a luz a tocara, um padrão de linhas douradas que fumegava na água.
— O que... — ele olhava para a própria mão, para ela, para a luz que ainda escapava da rachadura em sua carapaça. — O que você é?
Tha'lei não sabia responder. A luz estava diminuindo, a rachadura se fechando novamente, mas ela podia sentir que algo havia mudado. Dentro dela. E, talvez, dentro dele também.
— Eu não sei — admitiu ela. — Mas você foi o primeiro a me tocar quando isso aconteceu. Primeiro sangue. — Ela olhou para a marca dourada na mão dele. — Ou primeiro fogo.
Vorn a encarava com uma expressão que ela não conseguia ler. Os tremores haviam parado — não diminuído, parado completamente. Onde antes havia dor de abstinência, agora havia algo diferente. Confusão, talvez. Ou o início de uma pergunta que ele não sabia como formular.
Vozes ecoavam nos túneis ao redor. Reforços chegando. A cavalaria da resistência, atrasada mas vindo.
Vorn olhou na direção dos sons. Depois olhou para ela. E então fez algo que nenhuma de suas setenta e três caçadas anteriores jamais presenciara.
Ele recuou.
— Isso não acabou — disse ele, já se movendo em direção a uma saída lateral. — Eu vou voltar.
— Eu sei.
— E quando eu voltar, vou ter respostas. Para você. Para mim.
E então ele se foi — uma sombra desaparecendo nas sombras maiores de Null'kai, deixando para trás apenas a marca dourada em sua mão e mais perguntas do que Tha'lei sabia processar.
Keth'ra foi a primeira a chegar, arma em punho, olhos varrendo a câmara em busca de ameaça. Quando encontrou apenas Tha'lei, sozinha, inteira, a confusão em seu rosto foi quase cômica.
— Ele... fugiu?
— Ele foi embora. — Tha'lei tocou a rachadura em sua carapaça, que agora estava mais quente ao toque. — Não é a mesma coisa.
— O que aconteceu aqui?
Tha'lei pensou na luz. No grito de Vorn. Na marca que ela deixara nele — primeiro sangue, primeiro fogo, primeira conexão entre caçador e caça que não terminara em morte.
— Eu não sei — disse ela, honestamente. — Mas acho que estou começando a descobrir.
Atrás de Keth'ra, Vel'thara apareceu na entrada, apoiada em dois guardas mais jovens. Seus olhos de concha quebrada encontraram os de Tha'lei, e um sorriso surgiu em seu rosto antigo — o primeiro sorriso verdadeiro que Tha'lei via nela.
— Om'vel'ra — disse a anciã. — O caminho para dentro. Ele está se abrindo.
Tha'lei olhou para suas próprias mãos. Estavam tremendo — não de medo, não mais. De algo que ainda não tinha nome.
Primeiro sangue.
Não era o sangue que ela esperava derramar. Não era morte, não era violência, não era a prova brutal que Keth'ra dissera que precisaria dar.
Era algo diferente. Algo novo.
E em algum lugar nas profundezas de Null'kai, um caçador fugia pela primeira vez em setenta e quatro missões, carregando em sua mão uma marca dourada que queimava com perguntas que ninguém ainda sabia responder.
Keth'nu'lei.
Sangue que ilumina.
No Coração da resistência, Tha'lei tocou a rachadura em sua carapaça e sentiu, pela primeira vez, o que havia do outro lado.
Sua voz importa nesta história
O primeiro sangue foi derramado. O caçador hesita.
Deixe sua marca nas profundezas de Thalassara.
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