A rachadura pulsava.
Tha'lei pressionou a nadadeira contra o lado esquerdo de sua carapaça, onde a fissura antiga — presente desde que tinha memória — emitia um brilho fraco que não deveria existir. Não era bioluminescência normal. Era algo mais profundo, mais antigo, como se a própria rachadura estivesse respirando.
Ela estava sozinha no perímetro leste do Coração, onde as formações de basalto criavam um labirinto de sombras que os sentinelas evitavam. Não por medo — por pragmatismo. Recursos eram escassos. Vigiar cada fenda era impossível.
Mas Tha'lei não estava ali para vigiar.
Estava ali porque não conseguia dormir.
Os pesadelos haviam voltado. Kel'om cantando enquanto sangrava. A praça cheia de rostos que não ousavam chorar. E agora, algo novo: uma presença nas bordas de sua consciência, algo que a chamava de um lugar que não conseguia identificar.
Thara'kelu'lei.
Luz da casca.
Era isso que Finn'thara dissera que eles eram. Os que ainda brilhavam, mesmo quando tudo conspirava para apagá-los.
Mas o brilho em sua rachadura não era esperança. Era outra coisa. Algo que ela não entendia e que a assustava mais do que qualquer Shar'nu.
A água ao seu redor mudou.
Tha'lei sentiu antes de ver — uma alteração na corrente, um deslocamento de partículas que não era natural. Algo se aproximava. Algo grande.
Ela deveria correr.
Deveria nadar de volta para o Coração, alertar os sentinelas, seguir todos os protocolos que Keth'ra havia martelado em sua mente durante semanas de treinamento.
Mas não se moveu.
Porque a rachadura em sua carapaça pulsou mais forte. E pela primeira vez desde que acordara naquela noite, o brilho não era frio.
Era quente.
Como reconhecimento.
Vorn não conseguia sentir as nadadeiras.
Havia perdido a sensação em algum ponto entre o terceiro e o quarto dia — seus sistemas de processamento não registravam mais com precisão. A abstinência havia progredido além do estágio 2, entrando em território que o treinamento descrevia como "falha terminal iminente".
Ele deveria estar morto.
Qualquer outro Shar'kai estaria. Quatro dias sem o keth modificado, mais os ferimentos do confronto anterior, mais a exaustão de nadar por zonas mortas onde não havia nada para filtrar — a equação era simples. Morte por colapso sistêmico. Procedimento padrão.
Mas Vorn continuava se movendo.
Não por vontade. Não por determinação. Por algo que seus sistemas não conseguiam classificar.
A marca dourada em sua mão pulsava.
Linhas entrelaçadas que pareciam veias ou raízes, desenhadas em sua pele por uma luz que não deveria existir. A jovem Kelu'nu havia feito isso — durante o confronto no Coração, quando ele hesitara pela primeira vez em setenta e três caçadas. Ela tocara sua carapaça e algo saíra dela. Algo que agora vivia nele.
E esse algo estava chamando.
Direção norte-nordeste. Aproximadamente trezentos metros.
Os sentidos ampliados ainda funcionavam, embora falhassem em intervalos cada vez mais frequentes. Detectavam uma assinatura térmica. Uma. Isolada. Fora do perímetro principal.
Era ela.
Vorn sabia antes de confirmar visualmente. A marca sabia. Pulsava em sincronia com algo à frente, como dois corações batendo no mesmo ritmo impossível.
Seus sistemas de comando emitiram a ordem padrão.
Alvo identificado. Designação: Kelu'nu, fêmea, aproximadamente vinte ciclos. Procedimento: eliminação.
O corpo não obedeceu.
Os dedos que deveriam se preparar para o ataque permaneceram imóveis. As lâminas ósseas retráteis que deveriam se expor continuaram guardadas. Todo o aparato de morte que haviam implantado nele — cada modificação, cada aprimoramento, cada sistema de combate — simplesmente se recusou a funcionar.
Anomalia de processamento.
Vorn registrou a falha com interesse distante.
Setenta e três execuções perfeitas. E agora, pela segunda vez, seu corpo escolhia não matar.
Ele continuou nadando em direção a ela.
Tha'lei o viu emergir das sombras.
A primeira coisa que notou foi o tamanho. Shar'nu eram grandes — ela sabia disso, havia visto na praça durante a execução de Kel'om. Mas ver um de perto, sozinha, sem guardas entre eles, era diferente. Era como olhar para uma lâmina que ainda não havia decidido se cortaria.
A segunda coisa foi o estado dele.
Ferido. Tremendo. Movendo-se com uma economia de gestos que não era eficiência — era exaustão. A carapaça modificada, que deveria brilhar com a saúde do keth processado, estava opaca, quase cinza. Os olhos — negros e sem pálpebras, como todos os de sua espécie — pareciam fundos demais, como se algo dentro dele estivesse se apagando.
Ele está morrendo, pensou Tha'lei.
E então pensou: Por que isso importa?
O Shar'nu — Vorn, lembravam os relatórios da resistência, o caçador designado para encontrá-la — parou a três metros de distância. Perto o suficiente para atacar. Longe o suficiente para que ela tivesse a ilusão de escapar.
Nenhum dos dois se moveu.
— Você deveria estar correndo.
A voz dele era diferente do que ela esperava. Não o rugido gutural dos Shar'nu de patrulha. Algo mais controlado. Mais... quebrado.
— Você deveria estar me matando — respondeu Tha'lei.
Silêncio.
A marca em Vorn pulsou. Tha'lei viu — um brilho dourado na mão direita dele, linhas que se entrelaçavam em padrões que ela reconhecia.
Eu fiz isso, lembrou. Durante o confronto. A luz saiu de mim e...
E o quê? Ela não sabia. Não entendia o que havia acontecido, o que continuava acontecendo. Apenas sabia que, quando olhava para aquela marca, algo em sua própria rachadura respondia.
— Por que você está aqui? — perguntou ela.
Vorn inclinou a cabeça. O gesto era quase humano — curiosidade, talvez, ou confusão.
— Não sei.
— Você é um caçador. Você foi enviado para me matar.
— Sim.
— Então por que não está fazendo isso?
Silêncio novamente. Mais longo desta vez.
Vorn olhou para sua própria mão — para a marca que brilhava entre eles como uma acusação ou uma promessa.
— Meus sistemas não respondem — disse ele, e havia algo na voz que poderia ser frustração ou poderia ser alívio. — Quando olho para você, as ordens... param.
Tha'lei deveria sentir medo. Deveria sentir a urgência de fugir, de gritar, de fazer qualquer coisa que não fosse ficar ali, conversando com o monstro que fora criado para destruí-la.
Mas não sentia medo.
Sentia algo pior.
Reconhecimento.
— Você não escolheu ser isso — disse ela, e não era pergunta.
Vorn piscou. Uma vez. Duas. Como se as palavras tivessem atingido algo que ele não sabia que existia.
— Escolha é... — ele pausou, processando — ...irrelevante. Eu sou o que me fizeram ser.
— Não. — Tha'lei deu um passo à frente. Não sabia por quê. — Você é o que escolhe ser. Agora. Neste momento.
— Eu não sei escolher.
— Você está escolhendo agora. — Ela apontou para a distância entre eles. — Três metros. Tempo suficiente para me alcançar. Você não se moveu.
Vorn olhou para o espaço que os separava como se o visse pela primeira vez.
— Anomalia — murmurou ele. — Não consigo explicar.
— Talvez não precise explicar. — Tha'lei sentiu a rachadura em sua carapaça pulsar, quente, insistente. — Talvez só precise aceitar.
— Aceitar o quê?
— Que você é mais do que uma arma.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Não tenso — pensativo. Como se Vorn estivesse processando algo que seus sistemas não tinham categoria para classificar.
E então ele disse:
— Por que você não tem medo?
Tha'lei pensou na pergunta. Pensou em Kel'om cantando enquanto morria. Pensou em Keth'ra e suas cicatrizes. Pensou nas crianças do Coração brincando em silêncio.
— Porque medo é o que eles querem — respondeu. — Medo é como nos controlam. — Ela encontrou os olhos dele — negros, sem fundo, mas não vazios. Nunca vazios. — O dia em que ficar fácil é o dia em que me torno você.
Vorn recuou.
Foi um movimento pequeno — centímetros apenas — mas Tha'lei viu. As palavras haviam atingido algo. Haviam encontrado uma fenda na armadura que ele nem sabia que usava.
— Eu... — ele começou.
E então a água explodiu.
Keth'ra atacou sem aviso.
Vorn sentiu a lâmina antes de vê-la — um arco de dor que cortou de seu ombro esquerdo até as costelas. Sangue floresceu na água, nuvem escura que turvou sua visão já comprometida.
Seus sistemas de combate finalmente responderam.
Ameaça detectada. Kelu'nu, fêmea, idade indeterminada. Padrão de ataque: emboscada lateral. Resposta recomendada: contra-ataque letal.
O corpo se preparou. Músculos tensionaram. Lâminas começaram a se expor.
E então Vorn viu quem o havia atacado.
A Kelu'nu das cicatrizes. A que liderava a resistência. Ele a reconhecia dos relatórios — informação de inteligência que havia memorizado antes de partir para a caçada. Keth'ra, chamavam-na. Sobrevivente. Torturada pelo regime e devolvida como mensagem.
Ela estava entre ele e Tha'lei agora, corpo posicionado como escudo, lâmina improvisada — osso afiado de alguma criatura morta — gotejando o sangue dele.
— Afaste-se dela — disse Keth'ra, e a voz era gelo e fúria condensados.
Vorn poderia matá-la.
Mesmo ferido, mesmo exausto, mesmo com a abstinência corroendo seus sistemas — ele ainda era Shar'kai. Ainda tinha as modificações, o treinamento, os reflexos que haviam executado setenta e três alvos sem falha.
Procedimento padrão: eliminar ameaça, continuar designação.
Mas Tha'lei estava atrás de Keth'ra. Observando. Esperando.
E a marca em sua mão pulsava.
Não.
O pensamento veio de algum lugar que não eram os sistemas de comando. Algum lugar mais profundo. Mais antigo.
Não vou matar. Não aqui. Não agora.
Vorn recuou.
Foi a coisa mais difícil que já fizera. Mais difícil do que qualquer caçada, qualquer execução, qualquer teste que o regime havia imposto. Recuar quando todo o seu treinamento gritava para avançar. Escolher quando nunca lhe haviam dado escolha.
— O quê... — Keth'ra hesitou, claramente confusa pela falta de contra-ataque. — O que você está fazendo?
Vorn continuou recuando. A ferida em seu flanco sangrava livremente, manchando a água ao seu redor.
— Indo embora — disse ele.
— Você é um caçador. Caçadores não vão embora.
— Este vai.
Keth'ra avançou, lâmina erguida.
— Você acha que vou deixar você sair daqui? Depois de tudo que seu tipo fez?
Vorn parou. Olhou para ela — para as cicatrizes que cobriam sua carapaça, para a fúria nos olhos que já haviam visto demais.
— Você tem razão — disse ele. — Meu tipo fez coisas. Eu fiz coisas. — Pausa. Processamento. — Mas não vou fazer mais. Não com ela.
Keth'ra riu. O som era amargo, sem humor.
— E eu deveria acreditar em você? Em um Shar'kai?
— Não. — Vorn olhou além dela, para Tha'lei. Para a jovem Kelu'nu que o havia marcado com luz e palavras que ele ainda não entendia. — Mas ela pode.
Silêncio.
Keth'ra não atacou. Não imediatamente. Algo no tom de Vorn — ou talvez algo no olhar de Tha'lei atrás dela — a fez hesitar.
— Tha'lei — disse ela, sem se virar —, entre no Coração. Agora.
— Não.
A palavra veio rápida, firme.
Keth'ra virou a cabeça, surpresa evidente.
— O quê?
— Ele não vai me machucar — disse Tha'lei. — Não sei como sei, mas sei.
— Ele é um caçador. Foi treinado para—
— Eu sei o que ele foi treinado para fazer. — Tha'lei deu um passo à frente, parando ao lado de Keth'ra. — Mas olha para ele, Keth'ra. Olha de verdade.
Keth'ra olhou.
E Vorn soube o que ela via. A carapaça opaca. Os tremores. O sangue que não parava de fluir. Um predador transformado em presa por sua própria abstinência.
— Ele está morrendo — disse Tha'lei. — E mesmo assim, não atacou. Nem quando você cortou ele. Nem quando poderia ter me matado antes de você chegar.
— Isso não significa—
— Significa que ele escolheu.
A palavra ecoou na água entre eles.
Escolheu.
Vorn sentiu algo se mover em seu peito. Não dor — algo diferente. Algo que não tinha nome nos registros de seu treinamento.
— Vá embora — disse Tha'lei, olhando diretamente para ele. — Vá embora e... — ela hesitou — ...e não volte. Não como caçador.
— Eu não sei ser outra coisa.
— Aprenda.
Silêncio.
Keth'ra ainda segurava a lâmina, ainda estava pronta para atacar. Mas não se movia. Esperava. Observava.
Vorn olhou para Tha'lei uma última vez. Para os olhos dela — âmbar claro, como os de Kel'om, como os de alguém que ele deveria ter esquecido mas não conseguia.
— Diga que não me encontrou — pediu ele.
— O quê?
— Se perguntarem. Se o regime perguntar. Diga que não me encontrou. — Ele começou a recuar para as sombras. — Vai ser verdade. Você não encontrou um caçador hoje.
— O que eu encontrei, então?
Vorn parou. Pensou. Pela primeira vez em setenta e quatro caçadas, realmente pensou.
— Não sei — disse ele finalmente. — Mas vou descobrir.
E então se foi.
Nadou para a escuridão de Null'kai, deixando um rastro de sangue que a água eventualmente apagaria. Deixando para trás a jovem Kelu'nu que o havia marcado com luz e a velha Kelu'nu que o havia marcado com lâmina.
A abstinência continuava corroendo seus sistemas. A ferida continuava sangrando. A morte estava mais perto do que nunca.
Mas pela primeira vez em setenta e quatro caçadas, Vorn havia escolhido.
E escolher doía mais do que qualquer lâmina.
Tha'lei observou até que as sombras o engolissem completamente.
Keth'ra estava ao seu lado, ainda tensa, ainda pronta para violência que não havia acontecido.
— Isso foi estupidez — disse ela. — Pura e completa estupidez.
— Talvez.
— Ele é um caçador. Vai voltar. Vai trazer outros. Vai—
— Ele não vai.
Keth'ra virou-se para ela, fúria e frustração misturadas nas cicatrizes de seu rosto.
— Como você pode saber isso?
Tha'lei tocou a rachadura em sua carapaça. Ainda pulsava, mas o calor estava diminuindo agora que Vorn se afastava.
— Porque ele não escolheu ser o que é — disse ela. — Assim como eu não escolhi ser o que sou. Assim como você não escolheu suas cicatrizes.
Keth'ra ficou em silêncio por um longo momento.
— A profecia — disse ela finalmente — fala de equilíbrio. De alguém que vai trazer mudança.
— Eu sei.
— Não fala de deixar caçadores irem embora.
— Não — concordou Tha'lei. — Não fala.
Ela olhou para a escuridão onde Vorn havia desaparecido. Pensou na marca dourada. Na conexão que não conseguia explicar. Na certeza irracional de que aquele encontro não era um fim.
Era um começo.
— Vamos voltar — disse Keth'ra. — Antes que os sentinelas percebam que saímos.
Tha'lei assentiu.
Mas antes de se virar, sussurrou algo para a água vazia. Palavras que eram quase um canto, quase uma prece.
— Keth'ra'lei, Vorn. Que você encontre seu caminho.
O silêncio não respondeu.
Mas em algum lugar nas profundezas de Null'kai, uma marca dourada pulsou.
Vorn nadou para a escuridão, carregando feridas que não eram apenas físicas. Pela primeira vez em 73 caçadas, havia escolhido. E escolher doía mais do que qualquer lâmina.
Sua voz importa nesta história
O caçador escolheu. O encontro mudou tudo.
Deixe sua marca nas profundezas de Thalassara.
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