Vorn nadou, mas o corpo não o levava a lugar algum.
A água ao seu redor era água de Null'kai — fria, estagnada, vazia. Sem keth para filtrar, sem correntes para seguir, sem qualquer referência além da escuridão que se estendia em todas as direções. Seus sistemas de processamento tentavam mapear o ambiente, tentavam criar coordenadas a partir de nada, e falhavam em ciclos repetidos de estática que ele não conseguia desligar.
Direção desconhecida. Posição irrelevante. Estado funcional: crítico.
A ferida que Keth'ra lhe infligira continuava sangrando. Não muito — o corpo estava aprendendo a conservar, aprendendo a fechar o que podia ser fechado. Mas a perda de sangue era perda de sangue, e sem keth para repor, o preço era alto.
Vorn parou.
Flutuou na água imóvel, carapaça modificada pesando como chumbo, e tentou pensar.
O que fazer agora?
A pergunta era nova. Todas as setenta e três caçadas anteriores, ele tivera respostas. Encontrar alvo. Eliminar alvo. Retornar. Simples. Eficiente. Sem escolhas.
Agora, escolhas eram tudo que ele tinha.
Poderia voltar. Vo'kethara Central ficava a três dias de nado constante, dois se forçasse o corpo além dos limites de segurança. Poderia se apresentar aos oficiais, relatar falha na missão, aceitar a punição que viria. Seria severa — deserção técnica, abandono de designação, interação não-autorizada com alvo. Mas seria limpa. Eles o puniriam, o reparariam, o devolveriam ao serviço.
Seria simples.
A marca em sua mão pulsou.
Vorn olhou para ela — linhas douradas entrelaçadas, padrões que não correspondiam a nenhuma modificação que o regime houvesse implantado. Quando Tha'lei o tocara, no confronto no perímetro do Coração, algo saíra da rachadura em sua carapaça. Algo que agora vivia nele.
E esse algo não queria voltar.
Escolha.
Vorn olhou na direção de Vo'kethara — oeste, seus sistemas processavam, embora com falhas crescentes. Olhou para a escuridão de Null'kai — leste, onde as partículas de Tha'lei ainda apontavam, onde o Coração estava.
E então olhou para sua própria mão.
A marca pulsou mais forte, quente, insistente. Como um coração que ele não sabia que tinha.
O que você é?
A resposta veio de algum lugar fora dos sistemas de processamento, fora de todo o treinamento, fora de toda a lógica que governara sua existência até aquele momento.
Você não é mais deles.
Vorn começou a nadar.
Não para oeste. Não para leste.
Norte.
Em direção a nada que ele pudesse identificar, nada que fizesse sentido, nada que correspondesse a qualquer protocolo.
Apenas... longe.
A abstinência atingiu o estágio 3 no segundo dia.
Vorn sabia o que era — sabia pelos relatórios médicos que lerara, sabia pelos treinamentos que ignorara como irrelevantes. Estágio 3: falha de sistemas maiores, alucinações, colapso de coordenação motora. Morte em três a quatro dias sem intervenção.
Ele estava no segundo dia.
Os tremores começaram como vibrações sutis, nervos disparando sem comando. Agora eram convulsões completas, espasmos que dobravam suas nadadeiras em ângulos que não eram naturais. A visão fragmentava-se em imagens que não correspondiam ao mundo ao seu redor — padrões geométricos, cores que não existiam, rostos que ele não reconhecia.
Razão: privação de keth modificado. Prognóstico: terminal.
Um dia. Talvez dois.
Vorn continuou nadando.
O corpo sabia o caminho, mesmo quando a mente não. A marca pulsava em direções que mudavam a cada hora, puxando-o para frente como anzol em carne que ele não conseguia remover. Não era norte mais. Não era leste. Era apenas... adiante.
Para onde?
A resposta veio na forma de memória.
Não era memória dele. Vorn tinha certeza disso. As memórias de seus setenta e três caçadas estavam todas catalogadas, organizadas, acessíveis sob demanda. Isso era diferente. Isso era...
Velho.
Ele viu uma sala. Não a sala branca de sua modificação, quando tinha três ciclos. Algo mais antigo ainda. Uma sala com paredes de pedra escura, iluminada por brilho fraco que vinha de veios nas rochas.
Uma mulher estava lá.
Kelu'nu, pelos padrões. Pela primeira vez, Vorn percebeu que isso significava — sua carapaça tinha as curvas de sua espécie, os padrões que ele vira em Tha'lei. Mas esta mulher era mais velha. Muito mais velha. Padrões desbotados, movimentos lentos, olhos que tinham visto mais do que deveriam.
Ela estava cantando.
...thel'om'kai, vel'ra'keth, onu'lei'thara...
Vorn nunca ouvira aquela melodia. Não estava em nenhum banco de dados que ele pudesse acessar. Era antiga — mais antiga que o regime, mais antiga que Vo'kethara, mais antiga que tudo que ele conhecia.
E a mulher olhou para ele.
Não para Vorn. Para alguém que ele não era. Para alguém que estivera ali antes, antes que o regime o fizesse, antes que a modificação o transformasse em arma.
Você lembra, disse ela.
Lembrar do quê?
Do que você era.
Vorn tentou formular resposta, mas a memória se dissolveu como fumaça.
Havia algo antes.
Terceiro dia
A alucinação da Kelu'nu foi seguida por outras.
Vorn via coisas na água — formas que se moviam sem ter forma, luzes que brilhavam sem ter fonte. Ouviu vozes que não existiam, melodias que nenhum ser vivo cantava. Seus sistemas de processamento tentavam categorizar, tentavam explicar, tentavam racionalizar.
Falhavam.
Erro de sistema. Anomalia não identificada. Iniciando diagnóstico...
O diagnóstico nunca completava.
Vorn nadava mecanicamente, corpo movendo-se por pura inércia. A marca pulsava mais fraca agora, como se estivesse morrendo junto com ele. A ferida de Keth'ra deixara de sangrar — o corpo não tinha sangue suficiente para desperdiçar.
Um dia. Talvez menos.
Ele parou.
Flutuou na água imóvel e aceitou.
Isso era o fim. Setenta e três caçadas, setenta e três execuções, setenta e três vidas apagadas pela lâmina que ele se tornara. E agora a própria lâmina quebrava-se, apagava-se, deixava de existir.
Justiça, talvez.
Mérito, definitivamente.
Vorn fechou os olhos.
A água mudou.
Vorn sentiu antes de entender — corrente que não existia antes, deslocamento de partículas que não correspondia a nada natural. Algo se aproximava. Algo grande.
Caçador, pensou, e a palavra veio com aceitação. Vieram me buscar. Desertor. Falha. Eliminação.
Não teve medo.
Tampouco teve alívio.
Apenas... certeza. Isso era tudo. Setenta e três caçadas, e agora a setenta e quarta era dele. A lâmina sendo cortada, por fim.
A forma emergiu das sombras.
Vorn não reconheceu imediatamente. A visão falhava, fragmentando-se em padrões que ele não conseguia montar. Mas os sentidos ampliados ainda funcionavam, parcialmente, e registraram.
Carapaça modificada. Lâminas ósseas retráteis expostas. Metabolismo acelerado.
Shar'kai. Um caçador.
E então a forma falou.
— Vorn.
A voz era conhecida. Vorn lutou para acessar bancos de dados, para identificar, para reconhecer.
Shar'ek.
O nome veio com memórias que ele não sabia que tinha. Treinamento. O mesmo ciclo. Duas criaturas modificadas lado a lado, aprendendo a matar juntos, sendo transformadas em armas no mesmo momento. Shar'ek sempre fora o segundo melhor. Sempre o que ficava um passo atrás.
Sempre o que ressentia.
— Você está difícil de encontrar — disse Shar'ek. — Deixei um rastro fácil de seguir. Todo esse sangue.
Vorn tentou responder. A voz não funcionou.
— Abstinência estágio 3. — Shar'ek estava se aproximando, lâmina ainda exposta. — Faz quatro dias desde que partiu de Vo'kethara. Impressionante que ainda esteja se movendo.
Vorn queria dizer algo. Não sabia o quê. Defesa? Explicação? Confissão?
Nenhuma palavra veio.
— Você hesitou. — Shar'ek parou a três metros — perto demais, longe de menos. — Hesitou com a Kelu'nu. A designação especial. A que o Conselho quer viva.
Vorn sabia do que ele falava. Tha'lei.
— Eu... — a voz falhou, recuperou-se. — ...eu não a matei.
— Eu sei. — Shar'ek deu um passo à frente. — Os drones registraram tudo. Sinais vitais, padrões de movimento, hesitação documentada em tempo real. Você se recusou a executar.
Vorn não respondeu.
— Deserção — continuou Shar'ek. — Esse é o termo oficial. Abandono de designação. Recusa em cumprir protocolo. A punição padrão é...
— Morte.
— Morte. — Shar'ek concordou. — Mas para você, Vorn? Para o caçador com setenta e três execuções perfeitas? Para o único que já fez o regime reconsiderar o que significa ser arma?
Shar'ek parou.
— Para você, eles enviaram alguém especial. Alguém que sabe suas fraquezas. Alguém que treinou com você. Alguém que espera este momento desde que o instrutor disse que você era melhor.
Vorn tentou nadar. Tentou fugir.
O corpo não obedeceu.
Os tremores eram fortes demais agora. A visão era falha demais. A marca pulsava fraca demais.
Ele estava preso.
— Setenta e três — disse Shar'ek, voz baixa com reverência e ressentimento. — Setenta e três vezes, você foi o que eu queria ser. Perfeito. Eficiente. Sem falhas.
Ele ergueu a lâmina.
— Setenta e três.
A lâmina desceu.
Vorn tentou se esquivar. O corpo não obedeceu. A abstinência roubara coordenação, roubara velocidade, roubara tudo exceto a capacidade de sentir dor quando ela chegou.
A lâmina cortou fundo — do ombro esquerdo até as costelas, paralela à ferida que Keth'ra lhe infligira, mas mais profunda. Mais letal.
Vorn sentiu o sangue deixar o corpo em ondas quentes.
Isso é isso.
Setenta e três. E agora a setenta e quarta.
A escuridão se aproximava das bordas de sua visão. Os sistemas de processamento falhavam em cascata, um após outro desligando sem cerimônia.
Falha crítica. Perda de consciousness iminente. Iniciando desligamento...
Shar'ek observava-o caírem. Não havia satisfação em seu rosto — apenas certeza. Como se tudo sempre estivera escrito, como se este momento fosse inevitável desde o dia em que os dois foram levados para a sala branca.
— Você teve tudo — disse Shar'ek. — E jogou fora. Por uma Kelu'nu.
Vorn queria responder. Queria dizer que não era isso. Queria explicar sobre a marca, sobre a escolha, sobre a primeira vez em setenta e quatro caçadas que ele fora algo mais do que lâmina.
Mas não havia palavras.
Havia apenas escuridão.
E então a escuridão engoliu tudo.
Despertar
A consciência retornou em fragmentos.
Primeiro, dor.
Depois, som.
Finalmente, luz fraca que ele não deveria estar vendo.
Vorn tentou abrir os olhos — um deles funcionou, parcialmente. O outro estava selado por sangue ou ferida, ele não sabia ao certo.
O que ele viu não fazia sentido.
Era um teto. Não de pedra, como Null'kai. Não de metal, como Vo'kethara. De algo orgânico — coral morto, reparado com fragmentos de outros materiais.
Onde?
Tentou se mover.
A resposta veio na forma de dor aguda — ombro, costelas, músculos que foram cortados e não tinham keth suficiente para reparar.
Uma voz falou.
— Ele está acordado.
Vouta voz. Feminina. Não Tha'lei. Não Keth'ra. Alguma outra.
— Mantenha a guarda. Se ele se mover, mate-o.
Vorn tentou processar. Tentou entender. O cérebro não funcionava como devia — pensamentos lentos, conexões falhando, palavras que não faziam sentido.
Prisioneiro.
A conclusão veio com clareza aterrorizante. Ele não estava morto. Estava capturado.
Pela resistência.
Isso é pior.
Outra voz se aproximou. Passos pesados na água. Alguém parou ao lado de onde ele estava — algo como uma mesa improvisada, ou plataforma, ele não conseguia ver bem.
— Shar'kai. — A voz era masculina, carregada de ódio que Vorn reconhecia. — Você tem sorte de ainda estar vivo.
Vorn tentou falar. A garganta não funcionou.
— Não se esforce. — A voz masculina se aproximou mais. — Ninguém aqui quer ouvir o que você tem a dizer. Ninguém aqui quer ouvir justificativas. Ninguém aqui quer ouvir um caçador implorando por misericórdia.
Não estou implorando, pensou Vorn. Não sei se sei como implorar.
— Keth'ra disse para mantê-lo vivo. — A voz estava carregada de desacordo. — Keth'ra disse que ele tem informações. Que pode ser útil.
Uma pausa.
— Eu digo que é risco demais.
Vorn tentou novamente se mover.
Dor.
— Ele mata pessoas como nós. — A voz estava mais alta agora. — Ele matou setenta e três pessoas como nós. Pessoas que tinham famílias. Pessoas que tinham namoradas, filhos, gente que as amava. Ele matou todas elas sem hesitar.
A terceira voz — a feminina do início — interrompeu.
— Ele hesitou com Tha'lei.
— E isso torna tudo bem? Porque ele decidiu não matar nossa Keth'lei? E as outras? As que ele matou sem hesitar?
Silêncio.
Vorn fechou o olho que funcionava.
Setenta e três.
As execuções voltaram — não como memórias organizadas, mas como fragmentos. Uma Kelu'nu velha cantando enquanto a lâmina descia. Um Finn'ra implorando por vida em língua que Vorn nunca aprendera. Um grupo de Vora'makai jovens, todos transformados em cinzas antes que pudessem entender o que estava acontecendo.
Tudo isso. Eu fiz tudo isso.
E então uma nova memória surgiu. Não era dele. Era da alucinação — da Kelu'nu velha na sala de pedra escura.
Você lembra.
Lembrar do quê?
Do que você era.
O que eu era?
A pergunta ecoava na mente dele, e pela primeira vez desde que acordara naquele lugar estranho, Vorn queria saber a resposta.
O que ele era, antes do regime o transformasse em lâmina?
Havia algo?
Alguém?
A terceira voz — a feminina — falou novamente.
— Eu digo que esperamos.
— Esperar o quê? — A voz masculina estava carregada de incredulidade.
— Esperar Keth'ra. Ela vai voltar em breve. — Uma pausa. — E até lá... mantemos o caçador vivo.
Silêncio longo.
Passos se afastando.
— Você está criando um problema — disse a voz masculina, mas estava se afastando também. — Quando ele se libertar e matar alguém... não diga que eu não avisei.
A porta — se era porta — fechou-se.
Vorn ficou sozinho na penumbra, com dor, com sede, com a marca dourada pulsando fraca em sua mão.
E uma certeza.
Eles vão me matar. Keth'ra ou não. Informações ou não.
Eu sou o que eles têm ódio. O símbolo de tudo que perderam.
Setenta e três. E agora a setenta e quarta é minha.
A escuridão se aproximou novamente, e dessa vez Vorn não lutou.
Deixou que o levasse.
Retorno
A consciência veio e foi três vezes antes que finalmente se estabelecesse.
Quando Vorn acordou de verdade, a primeira coisa que percebeu foi o cheiro.
Não cheiro de Null'kai — frio, estagnado, vazio. Não cheiro de Vo'kethara — esterilizado, químico, artificial.
Cheiro de vida.
Keth.
Alguém havia trazido keth. Não muito, mas o suficiente para que seu corpo começasse a se recompor, começasse a reparar os danos que a abstinência infligira.
Vorn abriu os olhos.
Ambos funcionavam desta vez.
O que ele viu ainda não fazia sentido, mas pelo menos conseguia focar.
Era uma cela — pequena, acrada em ambos os lados, feita de coral morto e metal recuperado. A luz vinha de um veio de keth fraco nas paredes, brilho azul-esverdeado que pulsava como coração lento.
Havia alguém do outro lado das grades.
Vorn tentou se levantar. A dor ainda estava presente, mas diminuíra. O corpo respondia — parcialmente, mas respondia.
A figura do outro lado se moveu.
— Você acordou.
A voz era feminina. Jovem. Familiar.
Vorn focou.
Tha'lei.
A jovem Kelu'lei do confronto no perímetro. A que o marcara com luz. A por quem hesitara. A por quem Shar'ek o atacara. A por quem ele agora estava... onde quer que estivesse.
Ela estava olhando para ele através das grades. Não com medo, como ele esperava. Não com ódio, como ele merecia.
Com curiosidade.
— Onde... — a voz de Vorn falhou, recuperou-se. — ...onde eu estou?
— O Coração — disse ela. — A base principal da resistência. Em Null'kai Oriental.
Vorn processou a informação. Null'kai Oriental. Isso significava que Shar'ek o encontrara mais perto do que imaginara. Que a batalha — se podia chamar aquilo de batalha, quando um lado estava morrendo e o outro apenas terminara o trabalho — ocorrera perto da base que ele supostamente caçava.
Ironia.
— Você deve estar se perguntando por que está vivo — disse Tha'lei.
Vorn não disse nada.
— Shar'ek deixou você para morrer. Nós encontramos você por acidente — patrulha de reconhecimento. Houve... debate. Sobre o que fazer com você.
— Debate — repetiu Vorn.
— Alguns queriam matá-lo. — Ela não disse isso com crueldade. Apenas como fato. — Você é um caçador. Mata pessoas como nós. Setenta e três, dizem os relatórios.
Vorn fechou os olhos.
Setenta e três.
— Mas Keth'ra disse para mantê-lo vivo — continuou Tha'lei. — Ela disse que você sabe coisas. Informações sobre o regime. Rotas de patrulha. Comandantes. Fragilidades.
Vorn abriu os olhos.
— E você? — perguntou. — O que você quer?
Tha'lei ficou em silêncio por um longo momento.
Observava-o através das grades, e pela primeira vez Vorn percebeu algo sobre ela que não notara antes.
Ela não era como Kel'om.
Era parecida — os padrões em sua carapaça, os olhos âmbar, a maneira de se mover como se sempre estivesse cantando uma melodia silenciosa. Mas havia diferenças. A rachadura em sua carapaça, por exemplo. Pulsava com luz fraca, em sincronia com a marca em sua mão.
E havia algo mais.
Algo nos olhos dela.
Ela está me olhando como se eu fosse pessoa.
A percepção veio com força suficiente para derrubá-lo, se ele já não estivesse caído.
— Eu quero saber — disse Tha'lei finalmente — por que você não me matou.
Vorn pensou na pergunta. Pensou no momento no perímetro, quando os sistemas de comando gritavam para matar e o corpo simplesmente se recusou. Pensou na marca pulsando em sua mão. Pensou na certeza de que matá-la seria errado, embora ele não soubesse o que "errado" significava.
— Eu não sei — disse ele finalmente. — Foi... anomalia. Falha de sistema.
— Não foi falha. — Tha'lei deu um passo à frente, mãos na grade. — Foi escolha. Você escolheu.
Vorn não respondeu.
— A marca — disse ela, apontando para a mão dele, onde as linhas douradas ainda brilhavam. — Ela conecta a gente. Eu não sei como. Eu não sei por quê. Mas sei que existe.
Vorn olhou para a marca.
Você não é mais deles.
— Você não me matou — disse ele finalmente. — Quando Shar'ek me atacou. Você podia ter deixado eu morrer. Podia ter matado você mesma. Você não fez.
Tha'lei sorriu — não sorriso completo, mas algo que talvez se transformasse em sorriso um dia.
— Talvez eu também esteja começando a escolher.
Silêncio.
Vorn pensou nas setenta e três execuções. Nos rostos que não vira. Nas vidas que apagara. Pensei em Shar'ek e na lâmina descendo. Pensei na escuridão que engoliu tudo.
E pensou na Kelu'nu velha da alucinação, cantando em sala de pedra.
Você lembra.
Do que você era?
— Eu não sei quem sou — disse Vorn, e a confession veio com mais dor do que a lâmina de Shar'ek. — O regime me fez. Me modificou. Me transformou em... isso. — Ele olhou para as próprias mãos — mãos que mataram setenta e três vezes. — Não sei se existe algo antes. Alguém antes.
Tha'lei permaneceu em silêncio. Observava-o com olhos que viam demais.
— Talvez — disse ela finalmente — você precise descobrir.
— Como?
— Conosco. — Tha'lei recuou da grade. — Keth'ra vai querer interrogar você. Vai querer informações sobre o regime. Sobre Vo'kethara. Sobre tudo que você sabe.
Ela pausou.
— Mas talvez, em troca... você possa descobrir quem é. Depois de tudo que fez. Depois de tudo que eles fizeram de você.
Vorn olhou para ela.
Por que ela estava oferecendo isso? Por que a prisioneira dele, a Kelu'lei que ele fora enviado para matar, estava lhe oferecendo algo que ninguém mais lhe oferecera antes?
Redenção?
Palavra bonita. Palavra vazia.
Ele não acreditava em redenção.
Mas acreditava em escolha.
E escolher doía mais do que qualquer lâmina.
— Keth'ra'lei — disse Vorn, usando a saudação formal que Shar'nu usavam apenas em cerimônias. — *(Caminho de escolha).*
Tha'lei sorriu — dessa vez, sorriso completo.
— Keth'ra'lei, Vorn.
Ela se virou para partir.
— Tha'lei.
Ela parou.
— Você voltou — disse ele. — Você me encontrou aqui. Você... — ele lutou com palavras — ...você está me vendo como pessoa.
Tha'lei se virou de novo.
— E você está me vendo como?
Vorn pensou na pergunta. Pensou em tudo que vira nela — a coragem de enfrentar um caçador, a compaixão de oferecer esperança ao inimigo, a força de perdoar setenta e três mortes.
— Como alguém que eu... — ele pausou, procurando a palavra certa — ...que eu gostaria de ter sido.
Tha'lei não respondeu.
Mas os olhos dela brilharam, e pela primeira vez desde que acordara na cela, Vorn sentiu algo que não era dor.
Esperança.
Perigosa. Terrível. Mortal.
Mas esperança.
Tha'lei partiu, deixando Vorn sozinho na cela.
A marca pulsava em sua mão, sincronizada com a rachadura na carapaça dela mesmo à distância.
Conexão.
Vorn não entendia. Não sabia se algum dia entenderia.
Mas pela primeira vez em setenta e quatro caçadas, ele queria tentar.
A escuridão ainda estava presente. A dor ainda latia. O futuro ainda era incerto — provavelmente curto, provavelmente doloroso.
Mas havia algo novo.
Algo que nenhuma modificação do regime pudera criar.
Algo que nenhuma lâmina pudera cortar.
Escolha.
E escolher doía mais do que qualquer lâmina.
Mas Vorn estava descobrindo que a dor não era sempre ruim.
Às vezes, a dor era só o preço de se sentir humano.
Sua voz importa nesta história
O caçador desertou. O caminho da lâmina mudou.
Deixe sua marca nas profundezas de Thalassara.
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